--Mas de modo que não vás ferir aquelle que ainda hontem, além de nos sentar á sua meza como amigos, nos elevou á dignidade de partilharmos da sua fortuna. A lucta é comigo, e só comigo, e se me encontras disposto a combater-te, não me encontrarás disposto a tolerar-te a minima coisa que possa, mesmo de leve, ferir Jorge de Macedo, que é hoje meu socio, meu protector e meu amigo, finalmente. Mais ainda, Americo, e isto vale uma ameaça. Magdalena é uma pessoa sagrada para mim, e exijo que o seja para ti. A menor falta de respeito da tua parte, a menor insolencia que lhe dirijas, pagal-a, bem paga, fica certo d'isso. A contenda é comigo e só comigo, ainda uma e ultima vez t'o digo.

--Pouco me importam as tuas ameaças, e respondo a ellas com uma gargalhada.

--Bem sei que vai até ahi o teu cynismo e a tua cobardia.

--Luiz!...

--Cobardia, sim! affirmou Luiz perfilando-se destemido em face de Americo.

Este ia, n'um impeto de raiva, a lançar-se ao guarda livros, mas ao vêl-o tão resoluto, ao vêr-lhe nos olhos a chamma da valentia e a coragem com que o esperava, recuou, deteve-se, e volveu-se, saindo a dizer:

--Ia-me zangando! A occasião não era propria, e nem mesmo valia a pena. Tenho tempo de desforrar-me.

--Ou de levares uma licção que te aproveite, canalha! respondeu Luiz.

Dois minutos depois, já Americo andava ordenando e vigiando o trabalho dos negros e mais caixeiros do armazem, e Luiz continuava escrevendo, como se nada lembrasse a cada um d'elles d'aquella scena que o mulato havia provocado.

No entanto Luiz estava livido, d'esta lividez produzida pela raiva sopeada, e Americo, no meio da labutação dos seus subordinados, trazia nos olhos espelhado claramente, o pensamento, o desejo de vingança, que lhe avultava no seio.