A imagem, formosa sempre, e sempre sympathica de Magdalena, lá estava, apesar de tudo, interposta entre os dous, a separal-os, a affastal-os, a lançal-os, sem mesmo ella o pensar, em uma lucta tremenda, que devia necessariamente terminar muito mal para um d'elles, pelo menos.
Luiz via-a com os olhos do seu amor, do seu affecto, da sua virtude; Americo com os olhos dos seus desejos desenfreados de vingança, com os olhos da sua ambição e do seu calculo.
Magdalena era o centro d'uma linha nos extremos da qual se agitavam convulsivamente sentimentos inteiramente oppostos.
Teriam ambos a mesma força?
Qual d'elles tinha de attrahil-a?
É facil prevel-o. A imagem de Luiz já lhe enchia o seio, já lhe havia povoado os sonhos da primeira noite d'amor, aquelles sonhos porque ella passára accordada, solitaria na sua janella, com os olhos cravados na lua, e a alma a sentir o gosto amargo d'uma saudade indefinida.
VIII
Eram tres horas da madrugada, quando Magdalena se retirou da janella, onde a vimos tão scismadora, tão embebecida na contemplação silenciosa da rainha da noite, que, apesar de bem alta, ainda ia vaidosa a mirar-se nos crystallinos espelhos dos lagos adormecidos, e gosando as suaves emanações das flores dos jardins.
Nunca a formosa virgem tivera uma noite de sensações tão violentas, esmaltada de tantos receios e de tantas esperanças, de tantas rosas e de tantos espinhos.
A imagem de Luiz, ora lhe sorria cariciosa, meiga, e cheia de bondade, ora lhe apparecia gelada, fria, e grave, com todos os traços d'uma indifferença verdadeira.