Eram as alternativas do amor; era esta serie de contrastes e antitheses que o constituem, e de que elle proprio se alimenta, inflamma e vive!

Todavia, n'esta opposição de ideias, de phantasias, d'aspirações, que a dominavam e agitavam, o predominio era inquestionavelmente para o pensamento da felicidade, que tão magicamente lhe sorria no amor de Luiz.

O amor de Luiz!...

Aquelle sentimento era o céo com todas as suas bellezas; com as harmonias dulcissimas das harpas afinadas dos seus anjos; com todos os cambiantes das luzes formosas dos seus astros scintilladores!

E foi n'este diliciosissimo vago d'uma esperança de ventura que Magdalena adormeceu.

Os olhos, aquelles olhos sempre formosos, cederam por fim ao pêso da somnolencia, e deixaram-se velar docemente pelas palpebras, quasi transparentes.

Não cessaram porém as ondulações do seio, que estava sendo o leito d'um vasto oceano d'amor.

Não cessaram, não, porque ainda se prolongava o sonho, em que, inteiramente embebida, se havia demorado na janella, d'onde sahira momentos antes.

A formosa filha do cabinda estava vendo diante de si vastissimas campinas de flores perfumadas; estava ouvindo umas harmonias alegres, como nunca ouvira; tinha por cima o céo azul, limpido e sereno dos dias tropicaes, e em baixo, na terra, a esteira matizada de flores, que a mão d'uma fada branca, aeria e vaporosa, andava espargindo prodigamente.

Ó mocidade! como são magicos os teus sonhos, quando te perfumam o seio largo, as emanações balsamicas dos roseiraes floridos do amor! Como é deslumbrante e querida a imagem, que te faz palpitar o coração, gravada nos raios prateados de cada estrella, reflectida na superficie serena de cada lago, envolta nas harmonias suaves e doces do cahir da agua de cada cachoeira, presa nas mil palhetas douradas do sol de cada esperança, e engastada na muldura valiosa das perolas de cada crença!