Sonha, Magdalena, sonha! Na tua idade, os sonhos são vida, a vida é ventura e a ventura parece não ter fim!...

Sonha, em quanto te doura a fronte, e se reflecte no negro assetinado dos teus formosos cabellos, o sol vivificante dos teus vinte annos tão perfumados.

E Deus queira que um dia não tenhas de beber a sicuta das desillusões, o calix amargo e mortal do fel da desventura!

Desponta propicia a estrella do teu amor; prophetisam-te alegrias os canticos suaves, que te embalam o somno leve... Dorme, virgem; dorme, sonha, vive, e gosa!

E Magdalena sonhava.

N'aquelle momento, havia, porém, dois homens que a estavam vendo com olhos d'affecto formosamente sincero, mas inteiramente distincto.

Eram Luiz, que não podera conciliar o somno, e o negro, o cabinda, que havia accordado a pensar na felicidade da sua filha.

As seis horas da manhã já o sol dourava, com todo o seu deslumbrante explendor, a vegetação opulenta das mattas virgens, e as florinhas mimosas dos jardins vicejantes. As aves mandavam ao céo, nas azas invisiveis da viração do sul, o seu cantico matinal de graças e louvor. Sorria-se inteira a natureza, n'um sorriso que era como um hymno abençoando o Creador!

O cabinda andava já, contente do seu trabalho, entregue á limpeza das folhas seccas, cahidas, durante a noite, em volta do lago, onde Magdalena costumava ir sentar-se, pensativa, no fim de cada tarde.

E tão embebido andava o negro, que nem viu a sua filha approximar-se d'elle, surgindo d'uma das aleas da chacara, orlada de mangueiras, cajueiros e pitangueiras.