Em casa do seu senhor foi elle encontrar uma creancinha de dois annos, que tinha uns olhos lindos, os cabellos como os olhos, negros da côr do abysmo, e um rosto como o dos anjos d'um sonho de poeta, como o das fadas boas das visões nocturnas das mattas virgens.
A convivencia foi-o affeiçoando áquella creancinha, que lhe sorria tão innocentemente; que lhe estendia, alegre, os bracinhos mimosos, e, brincando, o abraçava carinhosamente pelas pernas.
O negro, quando via a pequenina Magdalena, sentia não sei que doçuras n'alma, não sei que effluvios no coração, mas que deviam ser gratissimos, porque os olhos desannuviavam-se-lhe logo das sombras de tristeza, que os velavam sempre, e os labios desatavam-se-lhe n'um sorriso de sincero e intimo jubilo.
E tomava-a no collo, sentava-se com ella á sombra das copadas tamarindeiras ou das laranjeiras em flor, cobria-a de beijos e affagos, entretecia-lhe corôas de jasmins e martyrios, e olhava-a, assim n'uma especie de adoração sublime e concentrada, talvez com a recordação nos filhinhos, que perdera, e que eram tambem pequeninos como a mimosa Magdalena.
Tinha dez annos a filha do cabinda, quando perdeu sua mãe.
Ficavam-lhe os affagos d'um pae estremoso e os carinhos do negro affeiçoado; mas que valia tudo isso? que valia a gotta d'agua para tão grande sêde? o atomo em face da immensidade desfeita?
O negro, que era dedicado á sua senhora, tanto como á pequenina Magdalena, esqueceu-se da sua condição de escravo, e arrojou-se, em um impeto de dôr e d'affecto, a entrar no quarto da moribunda, poucos momentos antes d'ella despedir o derradeiro alento.
Estava junto ao leito Jorge de Macedo, que era o seu senhor, embebendo em beijos lacrymosos o rosto da innocente, que ia em breve ser o seu unico encanto n'este mundo.
Os dois, pae e filha, assistiam angustiados ao desabamento d'aquelle edificio da sua ventura.
O cabinda entrou como perdido, olhou para Jorge com receio, com amor para Magdalena e foi ajoelhar-se, de mãos postas, junto ao leito da enferma, chorando como creança.