--Anda cá, cabinda, disse a moribunda, com voz amortecida, ao vêl-o de joelhos, alli, ao pé d'ella. Anda cá; vem vêr como se vai para o céo!...
--Que fazes, atrevido! exclamou Jorge a meia voz.
--Ah! meu senhor! a mãe do escravo é um anjo, e o negro quer despedir-se da sua senhora!
--Sahe, cabinda!
--Oh! não! não! supplicou este. O negro é escravo, mas o negro tem coração!
E abraçava a roupa do leito para abraçar a moribunda, chorava como doido, soluçando em desespero e supplicando com ardor:
--A mãe do cabinda ha-de deixar a sua filhinha e o seu parceiro, a chorarem saudades como o bemtevi do matto? Não, não nos deixes, mãe senhora!
--Papae, atalhou Magdalena, affagando as faces de Jorge, humedecidas pelas lagrimas; o cabinda chora, não trates mal o cabinda, que é nosso amigo.
--Oh! sim, sim! acudiu o preto. O cabinda quer muito á sua filhinha, quer muito á sua senhora e muito ao seu senhor! O negro tem alma e não tem familia a quem a dar. É, como a palmeira do morro, que não tem coqueiro ao lado.
--O negro é bom, meu Jorge, disse a doente a custo. E se te peço muito que fiques sendo a mãe da nossa Magdalena, não te esqueças tambem de que o cabinda a trouxe ao collo muitas vezes, quando era mais pequenina.