--Não esqueço, minha Beatriz! soluçou Jorge.
--E elle não ha-de ser mais nosso escravo, não, papae?
--Não, minha filha.
--Mas o cabinda, atalhou o negro, não quer deixar a casa do seu senhor, não quer viver longe da sua filha.
--Não, não nos has-de deixar, que nós somos todos teus amigos, acudiu a creança, affagando o escravo, emquanto Jorge dizia comsigo, no intimo da consciencia:
--O negro tem a côr do urubú, mas tem alma de pomba rola!
Horas depois, Beatriz, a esposa de Jorge, tinha entregado a alma ao Creador.
Jorge chorava, para um lado, profundamente ferido no coração, as dôres da sua viuvez. O negro e Magdalena soluçavam, abraçados, a perda da bondade da que tanto era mãe d'uma como anjo do outro.
Jorge conheceu, então, até onde ia a dedicação do seu escravo, a grandeza da alma do negro, e começou a olhal-o, a tratal-o e a querer-lhe, muito mais como a um membro da sua familia, do que como a um ente, geralmente visto com desdem, com indifferença e até com desprezo.
O cabinda perdera a sua familia, de que tão barbaramente o separaram, mas havia ganho muito pela sua dedicação.