--O branco chora? que tem? interrogou o negro rapidamente, passando do extremo da alegria ao extremo do receio.

--Choro, sim, e olha que nunca os meus olhos verteram lagrimas como estas! São de ventura, são de felicidade! Cada uma me vale o céo, cada uma é um hymno, cada uma é um poema! Choro, porque nem só a dôr, nem só a tristeza, nem só o infortunio, tem lagrimas. A alegria, quando é tão grande, como a que eu estou sentindo, tambem as tem, tambem se adorna com ellas. Aquellas são amargas, são negras, queimam e ferem; estas, que tu vês nos meus olhos, teem o explendor d'um sol formoso, são dôces, porque resumem a essencia d'um nectar suavissimo, dão vida, porque contéem em si os elementos que a vigorisam! Choro, porque sou feliz, cabinda!

O negro ouviu Luiz n'uma anciedade indiscriptivel. O peito arfava-lhe com violencia; era um mar tempestuoso. Os olhos, os seus grandes olhos, estavam pregados em Luiz. Susteve-se assim em quanto o amoroso moço ia fallando, enlevado nos transportes do seu grandissimo affecto. Mas apenas elle acabou, o negro acudiu logo immediatamente:

--E o branco gosta da senhora moça?

--Oh! se a amo!...

--Muito?

--Até ao delirio!

--Obrigado, meu branco! obrigado, meu branco! exclamou o negro, beijando phreneticamente as mãos ao moço.

--Que fazes, cabinda? acudiu Luiz, commovido, porque traduzia n'aquelles beijos a affeição do escravo por Magdalena.

--É porque a senhora moça é filha do cabinda, e o negro quer a senhora moça muito feliz.