Vacillava-lhe a razão, fugia-lhe a vista, em face d'aquelle bocadinho de papel, que lhe estava queimando as mãos, como fogo do inferno. Era incrivel, mas era a realidade! conhecia a letra de Magdalena, reconhecia tambem a fita que lhe prendia os cachos dos cabellos negros, na tarde d'aquelle jantar saudoso. Luiz desejava duvidar do que estava vendo, mas como, se as provas estavam agora na sua mão! Passou-lhe por diante dos olhos a visão medonha da vingança. Mas a Providencia não desampara os que bem lhe merecem, e limitou-se apenas a exclamar:

--Tão infame é ella como tu!...

--Então já não duvidas? perguntou Americo, attendendo apenas ao estado em que Luiz se achava, e importando-se pouco com as injurias que elle podésse dirigir-lhe.

--Não sei. Todavia quem me affirma que Magdalena não foi forçada a escrever estas linhas, a pôr o seu nome n'esta folha de papel e a entregar-te ou a mandar-te esta fita? Quem?

--Com isso poderá ella desculpar-se se lhe fores agora pedir contas do seu procedimento, bem o sei, mas pouco importa, porque esse bilhete falla bem alto.

--Oh! mas isto é incrivel! isto é um sonho!...

--Não é sonho, não. É a realidade. Acceitaste a lucta, batalhamos. Quando julgavas haver vencido, vês a victoria do meu lado. Acontece muita vez. Além d'isso, que dotes ha em ti que te recommendem mais que a mim? O seres portuguez? o seres branco? É justamente por isso que menos devias confiar em ti. Se tenho côr... sou brazileiro!

--Em todo o caso abusaste da minha ausencia e o teu procedimento não póde ser classificado senão de infame!

--Embora! com tanto que eu vença...

--Isso é o que ainda não está decidido. Não julgues que fico com o que me dizes. Heide indagar, heide empregar todos os esforços para descobrir a verdade. A letra do bilhete e a fita de sêda são de Magdalena, não ha duvida, mas se para as conseguires empregaste alguma violencia, commetteste alguma infamia, ou abusaste de qualquer modo, não te perdôo, Americo; as contas serão então comigo.