VII
Queimar não é responder!

No principio do anno de 1794, estava em toda a sua violencia o regimen do Terror, dirigido por Robespierre, no seio do comité de salvação publica. Os proprios dantonistas, tornaram-se, em vista d'isto, indulgentes, moderados; e agora que a republica estava senhora do campo de batalha, elles queriam fazel-a entrar no reino das leis, e no caminho da justiça para todos. Danton era o chefe d'esta opposição nova, e o joven e fogoso Camillo Desmoulins era a sua penna, e, no Vieux Cordelier, farpeava o governo com censuras e sarcasmos. O jornal era lido com avidez, e venderam-se, n'alguns dias, cincoenta mil exemplares. Afinal, Camillo ousou promover um comité de clemence, como o unico meio de pacificar os partidos e de acabar com a revolução. Não era isto o que queria Robespierre, que, n'uma sessão dos jacobinos, onde o impetuoso pamphletario tinha sido intimado a comparecer, propoz perfidamente dar-lhe uma correcção paterna, queimando os numeros do jornal.

—«Queimar não é responder!»—exclamou Desmoulins.

Esta replica imprudente causou a sua perda. Robespierre não se conteve e disse:

—«Pois bem, não se queimem e responda-se; leiam immediatamente os artigos de Camillo, visto que assim o quer, e que elle seja coberto d'ignominia!»

Alguns dias depois o intrepido moço subia ao cadafalso.

VIII
Caim, que fizeste de teu irmão?

Caim, filho primogenito de Adão e Eva, cioso de seu irmão Abel, cujas offerendas eram mais agradaveis ao Senhor, propoz-lhe um dia um passeio ao campo e matou-o. O sangue do justo subiu até Deus, e a voz do Eterno fez-se ouvir:

—«Caim, Caim, que fizeste de teu irmão?»

Deus amaldiçoou o fratricida, expulsou-o da sua face, e marcou-o na fronte com um signal de reprovação.