Cezar entrára em Roma, senhor do mundo inteiro. O senado conferiu-lhe honras extraordinarias e revestiu-o d'uma illimitada auctoridade. Foi nomeado consul por dez annos e dictador perpetuo; deram-lhe o nome de imperador, o titulo de Pae da Patria e erigiram-lhe uma estatua com esta inscripção:—Ao deus invencivel! A sua pessoa foi declarada inviolavel. Concederam-lhe o privilegio de assistir ao espectaculo n'uma cadeira dourada, com uma corôa na cabeça. Elle meditava projectos immensos; queria engrandecer Roma, ornamental-a de monumentos magnificos, fazer d'ella a rainha do Universo. Mas não lhe estava reservado o cumprimento de tão vastos designios. Debalde se exforçára por apagar todos os traços da guerra civil, debalde tinha cumulado de favores e elevado aos primeiros cargos os que o tinham combatido, debalde tinha erguido estatuas ao seu rival, porque nada podia desarmar os partidarios da antiga liberdade.

A sua clemencia parecia insultante; viu-se que não perdoava, mas que desdenhava punir. Afinal uma formidavel conjuração se tramou contra a sua vida. A conspiração devia explosir no meio do senado, e fôra fixada para os idos de Março. O caso transpirou no publico, mas Cezar recusou tomar qualquer precaução. Calpurnia, sua mulher, estava tão persuadida da realidade do perigo, que o conjurou, com as mais vivas instancias, a não sahir n'esse dia.

Conta Plutarco, que muito tempo antes, um adivinho tinha advertido o dictador de que devia desconfiar dos idos de Março. Quando sahia de casa para o senado, encontrou o adivinho e disse-lhe, rindo: «—Chegamos aos idos de Março.»—«É verdade—respondeu—mas ainda não passaram.»

Alguns passos adeante um homem entregou-lhe um bilhete que continha todas as particularidades da conspiração:—«Lêde—disse—e rapidamente!» Mas Cezar não teve tempo e entrou para o senado.

—Os idos de Março designam, por analogia, uma epocha perigosa de passar, e para a qual se fizeram incommodativos prognosticos.

8.º—E tu tambem, meu filho!

Apenas Cezar tinha entrado no senado, todos os conjurados o rodearam como para lhe prestarem honra. Cimber, um d'elles, apresentou-se, afim de lhe pedir o chamamento de seu irmão exilado, e como para lhe pedir com mais submissão, tomou-lhe a fimbria da toga e puxou-a com violencia. Era o signal combinado. Casca, tirando o seu punhal, feriu com elle o dictador no hombro. Cezar, no mesmo instante toma a arma do assassino e precipita-se sobre elle gritando:—«Que fazes, scelerado Casca?» Então todos os conspiradores desembainharam as suas espadas e lhe vibraram varios golpes. Cassio, mais animado que os outros, fez-lhe uma profunda brecha na cabeça; Cezar defendia-se ainda, quando avistando Bruto, com o punhal erguido sobre elle, exclamou:—«E tu tambem, meu filho Bruto!» Ao mesmo tempo cobriu o rosto com o vestido e cahiu atravessado com vinte e tres golpes, aos pés da estatua de Pompeu.

9.º—A tunica de Cezar.

O cadaver de Cezar abandonado no senado foi conduzido, todo cheio de sangue a sua casa por tres escravos. Alguns dias depois, Antonio appareceu na tribuna das harengas e leu á multidão o testamento do dictador. O povo, que elle não tinha esquecido nas suas generosidades fez explosir a sua indignação. Então, Antonio, desdobrando do alto da tribuna a tunica de Cezar, ensanguentada e crivada de golpes, tratou de parricidas os auctores d'aquelle assassinio. Esta scena levou ao cumulo a exasperação popular. E todos os assistentes fazendo logo uma fogueira com as mezas e os bancos que encontraram á mão, n'ella queimaram o corpo de Cezar; depois, tomando tições correram a casa dos assassinos para lhes lançarem fogo, e os atacarem a elles proprios.

XII
Estava escripto