Boileau exprimiu esta generosa ideia nos seguintes versos da Epistola ao Rei:
«Tal esse imperador, sob o qual, Roma via,
Renascer de Saturno e de Rhêa outro dia;
Que rendeu ao seu jugo o universo amoroso,
Que jámais alguem viu sem se sentir ditoso,
E que chorava á noite o tempo que perdera
Quando passava o dia e algum bem não fizera.»
XXXIV
Amo Platão, mas amo mais a verdade
Platão e Aristoteles são os dois mais illustres representantes da philosophia antiga. O primeiro, discipulo de Socrates, estava em todo o esplendor da sua fama, quando Aristoteles foi a Athenas para seguir as suas lições. O discipulo não tardou a tornar-se tão celebre como o mestre; mas dois espiritos d'esta superioridade, e, ao mesmo tempo, tão differentes, ambos feitos para reinarem no dominio do pensamento, deviam em breve separar-se.
Assim, Aristoteles, sem ser, como se diz, inimigo do seu mestre, não adoptava todas as consequencias da sua doutrina; todavia, quando se achava em contradicção com elle, sabia exprimir a sua opinião com a sábia medida d'um philosopho e não com a funda amargura d'um rival.
—«Amo Platão—dizia—mas amo mais a verdade.»—«Amicus Plato, sed magis amica veritas.»
—Esta homenagem prestada á verdade, quando é tida em desaccordo com as doutrinas de um genio, mesmo transcendente, passou a ter foros de proverbio.