Esta exclamação que se faz ouvir quando, depois de longas investigações, o espirito, repentinamente inspirado, chega á descoberta que elle perseguia, foi proferida pela primeira vez, por Archimedes, nas circumstancias seguintes:
Hieron, rei de Syracusa, suspeitava que um ourives, que lhe tinha fabricado uma corôa d'ouro, tivesse falsificado o metal, misturando-lhe uma certa quantidade de prata. Elle consultou Archimedes, seu parente, sobre os meios de descobrir a fraude, de que julgava poder queixar-se. O illustre mathematico reflectia profundamente na solução possivel d'este problema, quando um dia, estando no banho, percebeu que os seus membros, mergulhados na agoa, perdiam consideravelmente do seu pezo; que, por exemplo, elle podia levantar uma perna com extrema facilidade. O seu genio entreviu logo os elementos d'esse grande principio d'hydrostatica, que determinou em seguida rigorosamente:—que todo o corpo mergulhado n'agoa, perde uma parte do seu pezo, egual ao pezo do volume d'agoa que esse corpo desloca.—Esta descoberta dava-lhe a solução do problema. No meio do enthusiasmo que lhe produziu esta revelação elle sahiu do banho e lançou-se na rua gritando:
—Achei! achei!—Eureka! Eureka!
Com effeito, tinha encontrado o meio de determinar a gravidade especifica de todos os corpos, tomando a agoa por unidade. Procurou, pois, duas massas, d'ouro e de prata, cada uma d'um pezo egual á corôa: mergulhou-as successivamente n'um vaso cheio d'agoa, observando com cuidado a quantidade de liquido deslocado pela immersão de cada uma d'ellas. Submetteu á mesma experiencia a propria corôa, e achou assim o meio certo d'apreciar a quantidade d'ouro e de prata de que ella era composta.
—O achei! de Archimedes, ficou tendo applicação, nos casos em que, uma difficuldade qualquer, se vence por uma solução satisfactoria.
XXXVI
Eu desejaria não saber escrever
Néro, educado por Seneca e Burrhus, dois dos mais sabios romanos d'esse seculo, esteve longe de annunciar, na sua mocidade, as sanguinarias inclinações, que o tornaram o typo da crueldade. Elle pareceu querer consolar os romanos do reino de Tiberio; os seus primeiros actos, cheios d'uma grande doçura, provam que aos seus instinctos de crueldade soube alliar uma profunda hypocrisia, e que a educação é completamente impotente para abafar, em certos caracteres, pelo menos, os germens das paixões más, que trazem nascendo. Desde o segundo dia do seu reinado elle foi ao senado, e em um discurso que Seneca lhe havia composto, annunciou que o seu projecto era tomar Augusto por modelo. Em verdade os principios do seu reino pareceram-se com os ultimos do reino d'aquelle que se propunha imitar. Mostrou-se justo, liberal, affavel, polido, complacente e accessivel á piedade. A modestia realçava-lhe ainda as qualidades. O senado, tendo-o louvado pela sabedoria do seu governo, fez com que elle dissesse:
—«Esperem, para me louvarem, que eu o tenha merecido.»