Um dia em que lhe apresentaram, para assignar, a sentença que condemnava á morte um criminoso, elle disse:

—«Eu desejaria não saber escrever!»

E comtudo foi ... Néro!

XXXVII
Linguas d'Esopo

Esopo, escravo do philosopho Xantus, recebeu um dia do seu senhor, que tinha convidado varios amigos para jantar, ordem de comprar no mercado, tudo quanto houvesse de melhor, e nada mais.

—«Eu te ensinarei a especificares o que desejas, sem te entregares á discrição d'um escravo»—dissera o phrygio comsigo mesmo.

E comprou só linguas, que fez cosinhar de todos os modos possiveis, de maneira que o principio, o meio e o fim do banquete, foram linguas. Os convidados louvaram a principio a escolha d'Esopo, mas, afinal, desgostaram.

—«Não te ordenei,—disse Xantus—que comprasses o que houvesse de melhor?»

—«E que ha melhor que a lingua?—respondeu Esopo.—É o laço da vida civil, a chave das sciencias, o orgão da verdade e da razão; por ella se construem e policiam cidades; por ella se instrue, se persuade e se reina nas assembleias; por ella se satisfaz ao primeiro dos deveres, que é louvar os deuses.»