—«Pois bem—replicou Xantus, que pretendia apanhal-o—compra amanhã o que houver de peior. Os mesmos convidados virão a minha casa e quero variar.»

No dia seguinte Esopo só fez servir linguas, dizendo que a lingua é a peior coisa que ha no mundo.

—«É a mãe de todas as questões, a alimentadora de todos os processos, a origem das divisões e das guerras. Se ella é o orgão da verdade, é tambem o do erro, e, o que peior é, da calumnia. Por ella destroem-se as cidades; e se por um lado louva os deuses, por outro é o orgão da blasphemia e da impiedade.»

—As linguas d'Esopo ficaram celebres, para designarem o que, podendo ser encarado sob dois aspectos oppostos, dá egualmente occasião ao louvor e á critica.

XXXVIII
Lanterna de Diogenes

Na epocha em que vivia Diogenes, os athenienses pareciam ter perdido a memoria de Marathão e Salamina; eram já os athenienses da decadencia, e em quanto que Demosthenes procurava em vão accender essas heroicas recordações pelos masculos accentos da sua eloquencia, o cynico stigmatisava a seu modo, a sua cobardia e a sua corrupção.

Uma vez foi encontrado em pleno meio dia, nas ruas d'Athenas, levando na mão uma lanterna accesa, e como lhe pedissem a razão de tão estranho caso, elle limitou-se a responder:

—«Procuro um homem!»