XXXIX
O mestre o disse
Pythagoras, um dos maiores, e, talvez até o maior philosopho da antiguidade, aspirava, nada menos, que a constituir no mundo inteiro uma especie de religião. A sua doutrina tendia politicamente a estabelecer uma aristocracia forte e poderosa, e a revestil-a d'um caracter sacerdotal, que a tornasse semelhante ás theocracias do Oriente; em fazer das luzes scientificas a partilha d'um pequeno numero de iniciados, e em dar a estes o governo do mundo, attribuindo-lhes a infallibilidade. Estas grandes e arrojadas ideias inspiraram uma especie de terror aos gregos da Italia e provocaram o desastre espantoso que feriu subitamente os pythagonios.
Comprehende-se o imperio que um philosopho d'este quilate devia adquirir sobre o espirito dos seus discipulos, e assim, entre elles, a phrase—o mestre o disse, equivalia a uma formula magica, que cortava completamente todas as disputas.
—Esta phrase que serve para exprimir o respeito que se professa por uma auctoridade, era d'algum modo a divisa de La-Fontaine, cuja veneração pelos antigos é muito conhecida.
—Um orador contemporaneo affirmou, nos rasgos da sua eloquencia, que o homem não dirá mais—o mestre o disse, porque o homem está emancipado do homem. Elle dirá agora:—A verdade diz—A sciencia diz.
XL
O rei é morto, vive o rei!
Este velho grito da monarchia, significava que a realeza nunca morria em França. Apenas o rei exhalava o ultimo suspiro, um arauto apparecia ao balcão do palacio e gritava tres vezes deante do povo reunido:
—«O rei é morto, vive o rei!—Le roi est mort, vive le roi!»
Mas era, sobretudo, na cerimonia funebre e quando o defuncto monarcha ia tomar o seu logar nas cryptas de S. Diniz, que estas palavras, pronunciadas no meio das pompas da religião, retumbavam d'uma maneira verdadeiramente solemne. Ouviram-se, pela ultima vez, em França, na morte de Luiz XVIII.