Moliére alliava a um grande genio as mais formosas qualidades do coração, e tinha uma alma ao nivel do seu espirito. Caracter suave, complacente e generoso, nunca o abandonava o seu elevado sentimento caritativo.

Um dia em que partiu para S. Germano approximou-se-lhe um mendigo e pediu-lhe esmola. Moliére lançou-lhe uma moeda e subiu para o trem. Instantes depois percebeu que o pobre o seguia correndo. Fez parar. O pobre chegou-se e disse-lhe:

—«O senhor enganou-se, de certo, porque me deu um luiz, que eu venho entregar.»

—«Não, meu amigo—acudiu—e aqui tens outro.»

E como o seu genio estava continuamente álerta, e elle estudava em toda a parte a natureza, como homem que queria pintal-a, exclamou:

Onde se vae aninhar a virtude?

LI
Perdoae-lhes, meu Pae, não sabem o que fazem

Jesus Christo, cuja vida, acções e doutrina tinham sido mansidão e misericordia, só teve sobre a cruz palavras de doçura para os seus proprios algozes, sobre a cabeça dos quaes attrahiu o perdão de seu Pae. «Ora—diz S. Lucas—com elle levavam dois outros homens, que eram criminosos, para os pôrem á morte, e quando chegaram ao Calvario, Jesus foi crucificado entre dois ladrões, um á direita e outro á esquerda, e elle dizia fallando dos seus verdugos:—Perdoae-lhes, meu Pae, não sabem o que fazem!

Esta phrase cahiu do alto da cruz, no meio das agonias da morte e dos soffrimentos mais crueis, e resume admiravelmente o espirito evangelico e a moral sublime do sermão da montanha.