LIV
Tres linhas escriptas e eu farei enforcar quem as escreveu
Nada ha que mais se preste á critica e á satyra do que as leis. Anacharsis comparava-as ás teias d'aranha que prendem as pequenas e deixam passar as grandes moscas. La-Fontaine rimou a mesma ideia quando disse:
«Assim, conforme o que és, ou grande ou miseravel «A justiça fará que sejas branco ou negro.»
Não confirma a sabedoria das nações, os juizos do philosopho e do fabulista, quando concede ao condemnado vinte e quatro horas para maldizer a um juiz? Mas a cabula, o processo, o codigo n'uma palavra não justifica hoje estas accusações? e os traços que acabamos de citar são uma calumnia ou maledicencia? O presidente d'Ormesson parece ter respondido a esta pergunta quando disse:
—«Se eu fosse accusado de ter roubado as torres de Notre Dâme, e ouvisse gritar atraz de mim—agarra que é ladrão!—eu fugiria desesperadamente.»
Este terror que inspira a justiça, mesmo ao mais innocente, está plenamente justificado por estas palavras:
—«Deem-me tres linhas da escripta d'alguem e eu o farei enforcar.»
Os eruditos estão divididos sobre o auctor d'esta celebre phrase, que attribuem a Laubardemont, ao Padre Joseph, a Richelieu, a Jeffries, e que M. Proudhon, mais prudente, attribue a um ... criminalista.