O cardeal Richelieu, que conhecia o poder do equivoco, citava um dia esta phrase deante dos seus secretarios. Um d'elles, julgando embaraçal-o, escreveu n'um cartão—«Um e dois fazem tres.»—«Blasphemia contra a Santissima Trindade!—exclamou o cardeal—um e dois só fazem um.»
LV
Quem te fez conde? Quem te fez rei?
A fraqueza dos ultimos carlovingianos tinha permittido á feudalidade lançar profundas raizes entre os francos, e tornar-se quasi independente, e quando em 987 Hugo Capeto foi eleito rei de França em Noyon, pelos seus proprios vassallos e alguns pequenos feudatarios visinhos, elle ficou o que tinha sido antes, conde de Paris, possuidor de vastos dominios, mas não sendo, no meio dos poderosos barões, mais que o primeiro entre iguaes. Assim, todo o seu reino foi perturbado pelas revoltas dos proprios que o tinham levado ao throno, mas que recusavam reconhecer a sua supremacia. Poder-se-ha julgar pela altiva resposta d'um d'elles, com que olhos consideravam a nova realeza.
Um conde de Périgneux, Adalberto, emprehendeu conquistas e usurpára os titulos de conde de Poitiers e de Tours. O rei de França mandou-lhe um mensageiro para lhe perguntar:
—«Quem te fez conde?»
Ao que Adalberto respondeu:
—«Quem te fez rei?»
Estas phrases, frequentemente citadas, resumem uma epocha inteira.