S. João Baptista, filho de Zacharias e de Santa Elisabeth, prima da Virgem Santissima, retirou-se muito cedo para o deserto, levando uma vida cheia d'austeridades. Vestia uma pelle de camello atada á cinta por uma tira de couro, e o seu alimento constava de gafanhotos e mel bravo. Quando chegou á edade de trinta annos e foi preparado com rudes exercicios para o ministerio que lhe estava destinado, dirigiu-se ás margens do Jordão, prégando a penitencia, annunciando a realisação das prophecias e a vinda do Messias, que o tinha enviado para preparar os seus caminhos. «—Façam penitencia—exclamava elle—pois o reino dos céus está proximo». Os habitantes dos arredores corriam em multidão para o ouvirem. O synhedrio, tocado pelo seu genero de vida extraordinario e da sua eloquencia selvagem, enviou-lhe padres e levitas para saberem se era o Messias, ou Elias, ou simplesmente um propheta. Elle respondeu que não era propheta, nem Elias, nem Messias.—«Quem és então?, porque precisamos levar resposta aos que nos mandaram?»—«Sou a voz d'aquelle que grita no deserto:—tornae recto o caminho do Senhor!» E elle ajuntava:—«Aquelle que deve vir depois de mim é mais poderoso do que eu, e eu não sou digno de desatar os cordões do seu calçado. Moisés deu-vos a lei, mas o Christo vos dará a graça e a verdade.»

—Hoje estas palavras—gritar no deserto—teem um sentido desviado do primitivo. Significam na applicação—pregar, aconselhar, fallar em vão.

LXVIII
Zoilo

Celebre grammatico e critico grego do quarto seculo antes de Christo, e cujo nome era já proverbial no tempo d'Ovidio. Nada se sabe ao certo, quanto ao logar do seu nascimento, circumstancias da sua vida e genero de sua morte. Tambem nos não chegou nenhuma das suas obras. Sabe-se sómente, pelo testemunho quasi unanime dos antigos que elle se encarniçou contra as obras d'Homero.

Vitruvio pretende que Ptolomeu Philadelpho, indignado com as suas blasphemias litterarias, lhe infligiu o supplicio da cruz, ou o fez queimar vivo.

—O nome de Zoilo designa o typo do critico apaixonado e de má fé.

«No futuro, será Zoilo, com toda a furia,
Aos censores crueis uma cruel injuria.»

LXIX
Aspasia

Mulher grega, natural de Mileto, celebre pelo seu espirito e pela sua belleza. Foi muito cedo para Athenas, aonde não tardou a exercer sobre os homens mais illustres d'essa epocha, Pericles, Alcibiades, o proprio Socrates, o ascendente irresistivel da eloquencia, da graça e da belleza. Pericles, arrastado pelos seus encantos, repudiou sua primeira mulher para a desposar. Ella exerceu sobre elle tal ascendente, que teve a maior parte nos negocios da Grecia, tornando-se um verdadeiro poder na republica. Dizia-se que as harengas de Pericles eram mais d'uma vez inspiradas por Aspasia. Accusada d'impiedade ella defendeu a sua propria causa com uma eloquencia que apesar de grande, não a teria salvo, se seu esposo não enternecesse os juizes com lagrimas. Essa mulher illustre deve ser classificada, não como demasiadas vezes o é, na classe das cortezãs, mas na das hetairas, mulheres gregas, dedicadas ás artes, á poesia, á propria sciencia, e que eram procuradas para os prazeres do espirito, e de que Aspasia foi um dos typos mais graciosos e mais perfeitos.

Foi por justo titulo que o nome passou a significar entre os gregos a mais amavel das mulheres, como Alexandre o maior dos heroes,—e é n'este sentido que chamamos ainda hoje Aspasia á mulher que reune os dons do espirito aos encantos da belleza.