LXX
Babylonia
Assente sobre o Euphrates e embellezada por Semiramis, a Babylonia parecia ter sido a cidade mais esplendorosa da antiguidade. As suas muralhas de cincoenta pés de largura e d'uma altura prodigiosa, as suas cem portas de bronze, os templos, os palacios, as estatuas d'ouro, e, sobretudo, os seus jardins suspensos, tornavam-na a rainha das cidades antigas.
Rival de Jerusalem foi muitas vezes em guerra com o povo judeu que alli passou setenta annos de captiveiro, durante os quaes um grande numero não suspenderam as suas harpas nos salgueiros da margem, e abandonaram a religião de seus paes. As Escripturas fallam de Babylonia como de um foco de corrupção e idolatria; fizeram-na a personificação do mundo profano, o receptaculo de todos os vicios e de todas as impurezas. Exasperados pela politica barbara dos babylonios os israelitas votaram-lhes um odio profundo, e a dissolução dos costumes, de que foram testemunhas no captiveiro, augmentou áquelle sentimento o do horror e do desgosto. D'aqui o nome de grande prostituta, que elles deram a essa cidade.
—Hoje, que já não existe a Babylonia, que os viajantes e archeologos nem mesmo podem encontrar-lhe o local, só o nome sobreviveu, e applica-se aos grandes centros populosos, como Londres, e, sobretudo, como Pariz, onde a agglomeração das massas, as riquezas, os progressos da industria e da civilisação engendram fatalmente a corrupção de costumes.
—Os protestantes, que pretendem ser os unicos observadores da lettra e do espirito evangelico, chamam á vida eterna—a grande Babylonia.
LXXI
Incendiar os seus navios
Esta locução allude ao procedimento de alguns grandes capitães, que a historia nos representa incendiando os seus navios, que os haviam conduzido á abordagem nos barcos inimigos, afim de que os marinheiros e soldados, privados de toda a especie de fuga se vissem na contingencia de vencerem ou morrerem. Agathocles, tyranno de Syracusa foi o primeiro que na Costa d'Africa deu o exemplo d'esta resolução arrojada.
O imperador Juliano poz fogo aos seus depositos e aos seus mil e cem navios, no Tigre, quando fez a sua expedição contra Sapor, um rei da Persia. Guilherme, o Conquistador, abordando a Inglaterra em 1066, recorreu ao mesmo expediente, que foi seguido da victoria d'Hastings. Roberto Guiscard, no perigo eminente em que se achava com a sua pequena armada deante das forças consideraveis de Alexis Commene, incendiou a sua frota e as suas bagagens e ganhou a victoria de Durazzo a 13 d'outubro de 1084. Foi d'este modo, emfim, que Fernando Cortez, desembarcando na costa do Mexico preludiou a conquista d'esta região.
—Esta locução—incendiar os seus navios—passou a proverbio e quer dizer:—interdizer, subtrahir por uma iniciativa arrojada os meios de volver a uma resolução, de renunciar a uma empreza; pôr-se na impossibilidade de retroceder.