É esta a ultima menção que a historia faz d'esta cerimonia. Virgilio, no livro VII da Eneida, fez a descripção do templo de Jano e do cerimonial que presidiu á sua abertura.

—É por allusão a este templo, que se diz no estylo oratorio, e, sobretudo, em poesia—abrir o templo de Jano—para fazer guerra, começal-a, declaral-a, e—fechar o templo de Jano—para conclusão do tratado de paz, e pôr fim ás hostilidades.

LXXXII
Estatua de Nabuchodonosor

Nabuchodonosor II, cognominado o Grande, rei da Babylonia, tivera um sonho espantoso, mas de que ao despertar se não lembrava absolutamente nada. Nenhum dos magos da côrte pôde avivar-lhe a visão. O joven Daniel, então captivo na Babylonia, foi mandado vir á presença do rei e disse-lhe:

—«Eis o que viste, rei:—Havia uma estatua immensa, cuja cabeça era d'ouro, o peito e os braços de prata, o ventre e as côxas de bronze, as pernas de ferro e os pés de barro. De repente deslocou-se por si uma pedra da montanha, e indo ferir os pés da estatua, fel-a pedaços. Então os quatro metaes quebrados tornaram-se como o pó, que enche a athmosphera, no verão, e tendo-se levantado um grande vento, tudo levou. Mas a pedra que despedaçára a estatua tornou-se uma montanha immensa, que encheu toda a terra. Eis o teu sonho, ó rei, e agora a sua interpretação:—Tu és o rei dos reis; és tu, pois, a cabeça de ouro. Ha-de haver depois de ti um reino menor que o teu, que será de prata, depois um terceiro de bronze, que mandará em toda a terra. O quarto reino reduzirá tudo a pó como o ferro quebra tudo, mas assim como a estatua, de pés de barro, elle se dividirá por sua vez. Então Deus suscitará um reino para sempre eterno, que derribará e destruirá todos os reinos, como a pedra deslocada da montanha partiu a estatua e lançou ao vento o seu pó.»

Era a imagem dos quatro grandes imperios d'Assyria, da Persia, da Macedonia e de Roma, que, destruindo-se successivamente uns aos outros, deviam todos ser absorvidos por um imperio immenso e immortal, o de Jesus Christo n'este mundo.

—No estylo elevado faz-se muitas vezes allusão ao colosso de Nabuchodonosor, quando se quer exprimir que ha liga nas coisas, apparentemente mais puras, que os genios mais sublimes se prendem por qualquer ponto fraco aos lados vulgares da humanidade, que o poder que parece mais solidamente estabelecido não tem muitas vezes senão uma base fragil, que a circumstancia mais imprevista póde fazer cahir.

Assim, por exemplo, um escriptor contemporaneo, fallando da guerra de 1809, que foi a origem de todas as desgraças de Napoleão, diz:

—«Foi na outra extremidade do continente, foi em Portugal que se fez sentir o primeiro estalido, e que se percebeu de repente que a estatua colossal tinha um pé de barro