LXXXIII
Sepulchros do Evangelho
No capitulo XXIII do Evangelho, segundo S. Matheus, Jesus Christo levanta-se contra os impostores e hypocritas, com uma força d'expressão, uma vehemencia de linguagem, que espantam, n'aquella bocca divina, habituada a só fazer ouvir palavras de mansidão e de caridade. Elle não reprehendeu nenhum vicio com tanta energia, e quando nos lembramos da sua celeste indulgencia para com a mulher adultera, admiramo-nos do anathema terrivel que dardeja aos scribas e phariseus. É que nas inspirações da sua sublime natureza Jesus Christo bebia a certeza de que a hypocrisia é capaz de todos os crimes, que ella os contem todos em germen.
«Desgraça a vós! scribas e phariseus hypocritas, que purificaes o exterior da taça e do vaso, em quanto que por dentro sois cheios de rapinas e de maculas!»
«Phariseus cegos, purificae primeiro o interior da taça e do vaso, afim de que o exterior seja puro tambem!»
«Desgraça a vós! scribas e phariseus hypocritas, porque sois semelhantes a sepulchros caiados, que, por fóra parecem bellos aos homens, mas por dentro são cheios d'ossos e podridão!»
—A applicação d'esta phrase sepulchros caiados, ou a equivalente—sepulchros do Evangelho—sobresáe claramente do texto que citamos, quando se dirige ás pessoas; quanto ás coisas, caracterisa tudo quanto tem mais apparencia de brilho, que fundo e realidade.