Não temos a pretensão de exprimir uma verdade muito nova, dizendo que as mathematicas não são irmãs da poesia, embora Urania seja uma das nove Musas. E se não era mathematico, era digno de sel-o, aquelle que interrogado ácerca do effeito que lhe produzia a audição d'uma opera, respondeu:
—«O mesmo que o d'um sacco cheio de pregos, agitado vigorosamente.»
O mathematico habituado a medir tudo a regua e compasso, a tirar deducções por meio de raciocinios evidentes, fica quasi sempre insensivel ás bellezas da harmonia e do sentimento.
Um geometra assistia a uma representação da Phedra, e em quanto que todos os outros espectadores derramavam lagrimas, commovidos por essa magnifica poesia, que mostra em scena
«. . . . . . essa dor virtuosa»
«De Phedra, a pezar seu, perfida, incestuosa»
elle ficava frio, impassivel e contentava-se em dizer nas passagens mais patheticas:
—«Isso que prova?»
O astronomo francez Villemont, menos exclusivo, nunca deixava de dizer d'um fragmento de poesia que lhe causasse prazer:
—«É bello como uma equação!»
Era para elle o superlativo da admiração.