LXXXV
Manná

Quando os hebreus chegaram ao deserto e viram as provisões esgotadas, começaram a murmurar contra Moisés, dizendo:—«Conduzistes-nos a este logar para nos fazerdes morrer de fome?»—Moisés respondeu-lhes da parte do Senhor:—«Esta tarde comereis carne, e amanhã estareis saciados de pão.»—Com effeito, de tarde uma enorme quantidade de rôlas veio pousar sobre o campo, e no dia seguinte, pela manhã, um orvalho matutino cobria toda a planicie. Era uma especie de pó branco que tinha o gôsto da mais fina farinha misturada com mel.

Este alimento chamava-se manná. Os hebreus deviam apanhal-o em cada manhã e antes do nascimento do sol, e só em quantidade necessaria para o dia, excepto na vespera do sabbat em que deviam tambem recolhel-o para o dia seguinte. Alguns deixando-o de um para o outro dia encontravam-no corrompido.

Ora os filhos d'Israel nutriram-se d'este orvalho celeste durante os quarenta annos que viveram no deserto, até á sua entrada na terra da promissão.

—Comprehende-se que—manná—ou—é um manná—se não póde applicar senão n'um sentido metaphorico, como por exemplo:

—A verdade é um manná divino, com que se deve sustentar o espirito e o coração.

LXXXVI
Annel de Gyges

Gyges era um moço pastor da Lydia. Um dia vendo entreabrir-se a terra, desceu pela abertura, e viu, entre outras maravilhas um cavallo de bronze, completamente ôcco, com portas nas ancas. Abriu-as e encontrou um cadaver de grandeza mais que humana, tendo em um dedo um annel d'ouro. Esse annel, desde que se voltava o engaste para o lado interior da mão, tinha o poder de tornar invisiveis aquelles que o usassem. Gyges apoderou-se d'esse precioso talisman e dirigiu-se á côrte, aonde o annel foi a origem d'uma brilhante fortuna, porque o possuidor não tardou a tornar-se favorito e primeiro ministro.