—Não são raras as circumstancias em que cada qual desejaria ter no dedo o annel de Gyges. Qual é o que nunca se viu collocado n'alguma d'essas situações criticas, que fazem desejar, como vulgarmente se diz, «estar a cem braças pela terra dentro»? Por outro lado, que não daria a gente, em determinadas occasiões, para se encontrar invisivel, em certos logares, em que se debatem os nossos mais caros interesses, e o nosso destino?
D'aqui a frequente applicação que se faz do annel de Gyges, em litteratura e na conversação.
O espirituoso Alphonse Karr quiz ver no annel de Gyges uma allegoria que explicou a seu modo n'estes versos:
«Quem de Gyges o annel, conta, maravilhoso
«Nos casos falsos, ou na pura phantasia,
«—Agora o sei—a si se engana em demasia,
«Porque o frisante exemplo é grande, é numeroso.
«Se sois feio e sois mau, sem genio e já d'idade
«Ponde, á noite um annel, no vosso indicador,
«Com um brilhante que tenha um subido valor,
«E vereis como faz a sua claridade,
«Sob os raios da luz, em ponto bem escolhido,
«Dar-vos genio e belleza, e juventude, e encanto.
«Se sois mau e imbecil, elle vos faz um santo,
«Dizei quanto quereis, que já sois applaudido!»
LXXXVII
Honni soit qui mal y pense
Divisa da ordem da Jarreteira, instituida em Inglaterra em 1340 por Eduardo III. Em um baile da côrte que elle dava em honra da condessa de Salisbury, sua favorita, esta deixou cahir, dançando, uma liga, que era azul. O rei apressou-se a apanhal-a, e expoz assim a formosa condessa aos sorrisos malignos e aos maus propositos dos convidados.
—«Senhores—exclamou Eduardo III—honni soit qui mal y pense. Os que riem agora hão-de honrar-se um dia por usarem um objecto semelhante, porque a liga será posta em tanta honra que até os mais zombadores a procurarão com avidez!»
E no dia immediato instituia a Ordem da Jarreteira, que é uma das mais célebres da Europa.
A principal insignia consiste n'uma liga de velludo azul, que se aperta por cima do joelho esquerdo com uma fivela de ouro, sobre a qual se lê: Honni soit qui mal y pense!—Maldito seja quem d'isto mal pensar.