—«Eu acceitaria, se fosse Alexandre.»
—«E eu tambem, se fosse Parmenion!»—respondeu Alexandre.
E recusou.
8.º—Ó athenienses! quanto custa ser louvado por vós!
Alexandre tinha, do fundo da Asia, os olhos fixos na Grecia, e, sobretudo, em Athenas. Apesar do abaixamento em que esta cidade havia cahido, ficára sempre capital do mundo civilisado, pelas obras primas dos seus artistas, pelos immortaes discursos dos seus oradores e pela eloquente verdade dos seus historiadores, e Alexandre, tão apaixonado pela gloria, aspirava, acima de tudo, aos applausos d'esses athenienses frivolos, mas que egualmente distribuiam pela posteridade, a censura como o louvor. O conquistador acabava de penetrar nas vastas regiões da India, e preparava-se para atravessar o Hydaspe, de que Porus, á frente d'um formidavel exercito, ia disputar-lhe a passagem. O rio era largo e profundo, e as suas vagas quebrando estrepitosamente, deixavam a descoberto, aqui e alli, rochedos ameaçadores. Alexandre illude a attenção dos inimigos por um falso ataque, e aproveitando-se d'uma tempestade que lhe encobre os movimentos, affronta perigos inauditos para transpor o rio. Confessou depois que tinha, emfim, encontrado alli um perigo digno da sua coragem, e foi n'esta circumstancia, diz Racine, no prefacio da sua tragedia Alexandre, que o heroe exclamou:
—«Ó athenienses! quanto custa ser louvado por vós!»
9.º—Ao mais digno.
Estava conquistada a Asia; a terra, segundo a bella expressão da Escriptura, tinha-se callado deante de Alexandre; elle fizera a sua entrada na Babylonia, «não como um conquistador, mas como um deus» e o papel brilhante e terrivel que representára estava a terminar. Os festins e os desvarios de toda a especie tinham succedido ás batalhas. No meio d'uma ultima orgia, o conquistador foi atacado d'uma febre, que o levou em poucos dias. Só deixava herdeiros em curta idade, ou incapazes. Conta-se que, no leito da morte, perguntando-lhe os generaes a quem legava o imperio, elle respondera:
—«Ao mais digno!»
E expirou «cheio das tristes imagens da confusão que devia seguir-se á sua morte.»