Levanta em Sagres a grandiosa Escóla,
Onde a navegação acha elemento,
Para as expedições, que desenrola,
Em busca de qualquer descubrimento,
Quando uma frota sua o mar assola,
Ou uma nau se expõe ao mar e ao vento,
Escóla, que assombrava o mundo inteiro,
E em que, no estudo, o Infante era o primeiro!
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Se pelo mar conquista tanta fama,
E o seu nome circumda glorioso,
Das joias das acções que lá derrama,
Como navegador audacioso,
Tambem como homem d'armas se proclama
Disciplinado, firme e valoroso,
Como se fôra feito para a lucta,
Quem, pela Patria, a Gloria só disputa.
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Nos mares, onde tantas caravellas,
Rasgaram horisontes dilatados,
Sem receio da furia das procellas,
Nesses longinquos portos ignorados,
Onde as galás molharam suas velas,
Levando a Cruz e a Fé aos seus povoados,
Andam, inda, hoje, vivas, por memoria,
Do grande Heroe, as tradições de Gloria!
III
A fama, a gloria, o nome, e a saudade.
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Oh! ditoso morrer! Sorte ditosa!CAMÕES—Sonetos.
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Póde o tempo esquecer, por largos annos,
Os feitos d'um Heroe, acções d'um povo,
Quando o tempo resolve em seus arcanos,
O consagrar algum Heroe mais novo,
Ou commentar cruezas de tyrannos,
Pois cada tronco tem o seu renovo;
Mas desse olvido ha de surgir, um dia,
O tempo que esses feitos esquecia.