Diogo Gomes põe as lusas quinas,
Em Cabo Verde—essa africana porta
—Como se as hasteasse nas campinas,
Onde não houve nunca esperança morta.
Rasgam-se as nuvens densas de neblinas,
Ante o fervor, que o heroismo exhorta,
E á bahia d'Arguim o accesso expande
A maritima audacia, e ao Rio Grande!

4

Desvenda-se esse Mar, que Tenebroso,
Toda a coragem transformava em medo,
Como rendido ao susto perigoso,
Quem quer sondar o abysmo d'um segredo;
E esse campo de vagas, mysterioso,
Tão tido por feroz, insano e tredo,
Deixa de ser phantastica voragem,
Para prestar aos lusos vassalagem!

5

Levado na corrente caudalosa,
Que os animos inspira com ardor,
Dobra, n'uma derrota gloriosa,
Gil Eannes, o Cabo Bajador;
E essa tarefa rude e trabalhosa,
Que ao Infante traz mais um esplendor,
Novo florão engasta em seu diadema,
Nova estrophe nos cantos do seu poema!

6

Andavam cavalleiros, moços, pagens,
Entre si, disputando a primasia,
De derrotas incertas, de viagens,
Tidas por mais difficeis, dia a dia,
Buscando, cada qual, novas paragens,
Consoante as pintava a phantasia;
E foi assim, que, com fervor e fé,
Chegaram a Benim, Congo e Guiné!

7

Vencem os seus o Cabo das Tormentas,
Que foi, depois, Cabo da Boa Esperança,
Não sem luctas e luctas violentas,
Em que o trabalho mais renome alcança;
Não sem rudezas grandes e cruentas,
Dessas que a fama em seus laureis entrança,
E coube ao Duque de Vizeu a Gloria,
Dessa arrojada empreza meritoria.

8