Tal como o mar, que um dia é bonançoso,
Beijando docemente a costa, a praia,
E no outro dia é já tempestuoso,
Em mortalha mudando a alva cambraia,
Da fina espuma do seu dorso airoso,
Para melhor colher o que desmaia,
Hoje, sereno, amante peregrino,
Mau, amanhã, terrivel e tigrino.

10

Assim o espirito do Infante, ás vezes,
Calmo sorria ao fim d'alguma empreza,
Triumphante de todos os revezes;
Mas enchia a sua alma de tristeza
Quando a sorte feria os portuguezes,
Porque ante a sorte ha força que é fraqueza,
E nem sempre volviam gloriosas,
Essas expedições audaciosas!

II

O mysterio que desde a creação estava suspenso sobre o Atlantico, e occultava ao conhecimento do homem metade da superficie do globo, tinha reservado para o Infante D. Henrique, o navegador, um campo de nobres commettimentos.

RICHARD HENRY MAJOR—Vida do Infante D. Henrique.

1

Como um extenso campo, pelo arado
Fendido em sulcos para a sementeira,
O Atlantico, por elle, foi sulcado,
N'uma larga derrota lisongeira,
Em que, sempre, um caminho era traçado,
De larga via e luminosa esteira,
Levando o Infante ás terras procuradas,
As naus e as galés afortunadas.

2

Os Açores, Madeira e Porto Santo,
Pelo arrojo de Zarco e Tristão Vaz,
Surgem formosas, como por encanto,
Ao que, por descubril-as, tanto faz.
Leva a Ceuta os seus feitos e, no emtanto,
Sempre no seu intento firme e audaz,
Segue lançando o penetrante olhar,
As ondas do attrahente e vasto mar!

3