Foi de Sagres, nos sonhos radiosos,
Embalados, do mar, nas harmonias,
Quando o mar, nos anceios carinhosos,
Ia, meigo, beijar-lhe as penedias,
Como para attrahil-o aos gloriosos,
Altos projectos de futuros dias,
Que concebeu os planos de conquista,
Lançando, ao longe, a penetrante vista.
5
Ninguem, como elle, ousára ainda tanto,
Abrir caminho certo a essas paragens,
Onde a noite é mortal, o sol quebranto,
Os habitantes negros e selvagens;
Porque ninguem sentira o doce encanto
De lograr tão esplendidas miragens;
Porque ninguem, como elle, decifrava
Os enigmas, que o mar apresentava.
6
Rodeado d'espiritos valentes,
Promptos á voz, que vinha d'um desejo,
Calando, sempre, em corações ardentes,
Cheios de brio, aspiração e pejo,
Mal dardejava ás ondas relusentes,
Os olhos, no clarão d'algum lampejo,
Ao vento desfraldavam, logo, as vélas,
Arrojadas, veleiras caravellas!
7
Não eram ambições de vil riqueza,
De conquistas, que augmentam poderio,
Ou paixão de cubiça, de torpeza,
Para satisfazer um desvario,
Ou um capricho vão de vã fraqueza,
O que o levava á busca do gentio:
—Era mais alto e nobre o pensamento,
Que o punha firme n'esse ousado intento.
8
Na descoberta de regiões ignotas,
Tinha apenas um alvo, que era a Gloria,
D'avançar na sciencia das derrotas,
Para lograr, sobre outros, tal victoria,
Levando a Fé ás tribus mais remotas,
Cuja religião era irrisoria;
Não por prazer de ter móres dominios
Acalentava o Infante estes designios.