Já ha muito publicavamos em Coimbra a Folha, quando Eça de Queiroz, enthusiasmado, nos assignalou o novo periodico, incitando-nos a implantar entre nós a que elle chamava poesia do futuro.
Acostumados á leitura exclusiva dos cinco ou seis poetas que, por aquella épocha, se liam e discutiam em Coimbra, surprehendeu-nos a nova publicação, não tanto pela novidade que poderia notar-se no seu elemento poetico propriamente dito, mas sim, principalmente, pela correcção quasi scientifica da fórma.
Póde affirmar-se que foi ahi que, em França, teve principio a moderna evolução do verso, evolução que nós, que absolutamente desconheciamos aquelle movimento, tambem tinhamos iniciado na Folha.
Este phenomeno poderia explicar-se por uma das leis de Vico.
Dissemos que no Parnaso não havia innovações no elemento poetico, e realmente, a não ser a exclusão de alguns dos velhos assumptos convencionaes, o que se observava era que os novos poetas (não nos referimos á sua idade segundo os repertorios) continuavam como até ali a poetar, de harmonia com os seus temperamentos, segundo a sua propria originalidade. Via-se que os não unia nem communhão de idéas ou de sentimentos e tradições, nem até um mesmo systema ou methodo de execução: não formavam uma escóla: unia-os apenas um principio, que manifestamente haviam adoptado por influencia de Th. Gautier e de Banville, o de que poesia sem arte não é poesia; não tem outro valor senão o dos pensamentos que contém: é prosa.
Para esses parnasianos, portanto, que são os que actualmente constituem a mais gloriosa constellação de poetas do seculo XIX, isto é, para Baudelaire, F. Coppée, Sully-Prudhomme, Soulary, Leconte de Lisle, André Lemoyne, Glatigny, Catulle Mendès, Armand Silvestre, Th. de Banville, Léon Valade, Paul Verlaine, Léon Dierx, José Maria de Heredia, Em. des Essarts, e para muitos outros, não ha arte aonde o verso não é absolutamente correcto.
Mas, a evolução da fórma consistirá só n'isso, parará ahi?
Com certeza que não.
Aquelle principio adoptado pelos parnasianos, não é realmente novo; os grandes poetas latinos sempre o seguiram, e foi na Epistola ad Pisones, que o Tasso, Camões, Ariosto, e outros, o encontraram, adoptando-o.
O conhecimento amplissimo da lingua, tão necessario para quem faz um poema, como o da combinação das côres para quem pinta um quadro, e a sciencia da revelação do pensamento pela fórma mais nitida, mais perfeita e mais adequada a esse pensamento, são as duas bases em que assenta aquelle principio.