A Nação deve pensar bem que não é desta forma que se resolvem as questões pendentes, não é desta forma que se resolve{18} o problema da nacionalidade a que logo me referirei.

Longe de mim a intenção de empanar a obra gloriosa de 5 de Dezembro, tanto mais que nunca será suficientemente grande a gratidão que possamos e devemos afirmar ao homem que conseguiu fazer uma coisa que até ali ninguém tivera a coragem de realizar: arrostar com Afonso Costa.

A situação era assim parecida com a que nos oferece uma larga praça onde numerosa garotada se apedrejasse e apedrejasse os transeuntes pacíficos e indefesos. Não podíamos atravessar essa praça sem correr o risco de sermos atingidos pelas pedras. Havia, é certo, uma esquadra de polícia; mas os seus agentes não se arriscavam a pacificar a praça e a garantir a integridade da cabeça aos que passavam. Por fim, aparece um mantenedor da ordem com seus agentes: é o Sr. Sidónio Pais: corre, afasta, domina a garotada. Ela, porém, existe ainda, embora longe, para lá das embocaduras das ruas... Só quando ela desaparecer, se poderá então dizer que a ordem está completamente mantida.{19}

O prestigio do Sr. Sidónio Pais apoia-se num facto puramente negativo: o terror do democratismo. A sua situação por ora é apenas a de um mantenedor da ordem que nos guarda, e a quem defendemos para que nos guarde.

Ora não há só o problema da ordem a resolver: há o problema financeiro, o problema económico e o problema internacional que é gravíssimo. Pode o Sr. Sidónio Pais resolvê-los ou resolver algum deles? Não sei; mas só a resolução certa de todos eles ou de alguns lhe dará a categoria de estadista, e colocará legitimamente num alto pedestal a quem o conseguir. Para esse desiderato, devemos reservar todas as nossas energias.

Somos um povo messiânico... Mas porque não pôde ainda ser outro o apoio da Nação? Porquê? Vamos vê-lo.{20}

O regímen republicano português

a) A SUA ACÇÃO COMO ELEMENTO DE DISSOLUÇÃO NACIONAL

O regímen republicano português cavou um grande abismo entre si e a nação; tem sido sempre, infatigavelmente, um elemento de dissolução nacional, porque, ao proclamar-se, olhou para a nação e perguntou: qual é o principal problema a resolver? A ordem pública?, o pão?, a situação internacional?, o ensino?, o trabalho? Não! O primeiro problema, o fundamental, aquele em que todos têm os olhos, aquele que representa a aspiração colectiva e a máxima urgência,--é o da expulsão dos Jesuítas! E começou-se por aí. Andavam todos os lares domésticos portugueses desassossegados, inquietos; todas as famílias estavam oprimidas, vivendo sob pesadelos enormes, por falta de uma lei que estabelecesse o divórcio. E veio a lei do divórcio. A seguir, surge a lei da separação e atrás{21} disto, a república nada mais nos deu que constitua seu património e sua glória, porque para mais não chegou o seu conhecimento da vida pública... O resto é a multidão dos pequeninos expedientes, daquelas pequeninas providências que vieram atrás da lei do divórcio, da expulsão dos Jesuítas e da lei da separação.

Nos centros, nos comícios, nas batuques partidários, onde se planeiam ataques e ódios contra os monárquicos, foram esses os problemas que unicamente preocuparam toda a atenção dos grandes estadistas e dos grandes legisladores de 1910. Não se fez uma obra positiva; e até o que podia ser bom por acaso, até isso nunca o fizeram senão por mal...