No meu bairro está a construir-se um edifício que é destinado à Maternidade. Imaginam que esta Maternidade se está erguendo por amor à mãe? Não; pois o lugar é impróprio e detestável; mas porque se estava levantando ali uma capela ao Sagrado Coração de Jesus, vá de fazer a maldade, de pregar a partidinha, de pôr a nota mesquinha e irritante: arrasam-se{22} os alicerces da capela e ergue-se a Maternidade. Não há uma só medida que possamos dizer que seja ampla, genérica e absolutamente boa; todas tem um fundo antipático de maldade; em todas elas, há um bico de alfinete envenenado... O país olhou o regímen republicano, um pouco convencido de que chegara a hora de viver tranquilo. Estava cansado de lutas civis, de lutas políticas, de campanhas de descrédito; e o novo regímen, em vez de procurar aproveitar a aura que o bafejava, começou a provocar represálias, ódios, invejas e más vontades, incompatibilizando-se de tal maneira com a Nação, que, perante o movimento de 5 de Dezembro, ela limitou-se às palmas, aos vivas e aos apoiados, a isso que eu chamo o apoio teórico.

b) O SEU NEGATIVISMO SISTEMÁTICO

O regímen republicano é essencialmente negativo. Para ele, só há um facto permanente: o perigo monárquico. Os republicanos dizem, repetem e decretam que a{23} Monarquia jamais volta a Portugal; mas desde manhã até à noite e de noite até pela manhã, não pensam noutra coisa senão na volta da Monarquia a Portugal. Se ela nunca mais volta, se a República é amada por toda a Nação, se a Nação quer a República, se a Nação é republicana, onde está o perigo monárquico? Eles bem sentem que tudo lhes é provisório, a começar pelo chefe do Estado cujas funções são constitucionalmente provisórias...

Se um pobre campónio, um dia, no meio das suas terras, ignorando ainda que já está a República, solta um viva à Monarquia, logo no dia seguinte os jornais republicanos publicam telegramas em normando, afirmando desconsoladamente que a Monarquia foi proclamada na aldeia de tal, e que a República está em perigo... Se os partidos republicanos tivessem a consciência tranquila e a certeza de que a Nação estava contente com a República, não andavam tão preocupados e aterrados com o fantasma da Monarquia! De resto, todos eles sabem que ela voltará.

Um dos chefes republicanos mais célebres{24} e que tem a vantagem de ser um veemente homem de bem, disse-me por mais de uma vez, que a República era inadaptável a Portugal. Mas disse-mo a mim, e não o diz em público, por falta de coragem e honradez cívica.

A falta de sinceridade e a negação sistemática da evidente verdade afastam o regímen republicano da Nação, e fazem com que esse regímen, ainda mesmo sob a modalidade especial e simpática que lhe dá o Sr. Sidónio Pais não possa encontrar já, hoje, outro apoio que não seja o apoio meramente teórico que está tendo.

c) A FALÊNCIA DA SUA MENTALIDADE

E a que é devida toda esta situação que se criou o regímen republicano? É devida aos maus instintos ingénitos dos homens que a servem? Não, porque a maior parte deles apesar da aguarrás e das forcas que prometem são incapazes de matar uma mosca. O motivo é outro: é a falência da mentalidade dos seus dirigentes. Ao olharmos os seus espíritos, o que sentimos é a{25} impressão de que são espíritos fechados, curtos, sem horizontes e janelas. Sentimos que há uma urgente e absoluta necessidade de os naftalinizarmos, de abrirmos as suas janelas e deixarmos entrar neles o sol, a luz e o ar...

Leram um dia Rousseau, Lamartine, Louis Blanc, Guizot, e ficaram por aí. E no entretanto, quanto se tem andado já!

Entre a mentalidade deles e a da Europa há um abismo!