[AO DESPIR UM PIERROT]
A noite, lunarmente clara, envolvia em prata o recinto virginal, em que, sem acceder ao somno, CHRISTINA se divertia, mostrando ao astro lubrico os tons roseos de sua carnação perfeita como se talhada em marmore rozado e humido.
Aquelle silencio luarento povoava as sombras de tetricas visões; mas soffrendo o conflicto das ideias de uma traição de NARCISO e da lealdade perquiridora de STELLA, a desaccordada mulher caprichou de não durmir emquanto a espiona não tornasse do baile à fantasia.
—Reconheceu-te, Stella?
—Como me reconhecer?... Quem te disse estar elle no baile?
—Não o viste?{168}
—Comprehendo-te, agora; empolgou-te a ideia de que Narciso estaria no baile, e, escrava dessa supposição, criaste todo um systema de desconfianças, que começaram de traduzir-se, muito naturalmente, naquella tua phrase.
—Viste-o?
—Vi-o. Porque arregalas deste modo os olhos? Não esperavas esta noticia?
—Esperava. Mas, como todo o mundo que espera a nova de um desastre com uma pontinha de esperança em contrario, suppuz sempre que não puzesses os olhos sobre elle. Embora trahida, eu quereria não ser sabedora do mal...