—Sempre é curioso este «Café» em materia de mulheres. Não vejo esta «Menina{180} Leontina», como a chamam, que não me recorde logo da infeliz Madame Berthon.

—E tu, meu caro Wenceslau, és bem a chronica viva de toda a feminidade desta terra. Não ha uma mulher de quem não tenhas informações, anedoctas, segredos, sobre quem não lances um episodio de curioso entrecho.

—Não conheceste tambem a Madame Berthon?

—Somos os dois extremos: nada escapando ao teu saber e tudo me sendo ignorado...

—Era uma vaporosa copia de Helena, capaz de mover guerras, e tentar a inspiração do artista mais rude para produzir uma obra-prima.

—Alguma divindade incognita...

—Não, mas a causadora de duas mortes: um assassinio e um suicidio. Quem a visse na simplicidade das suas vestias, no commum dos seus gestos, e na temperança dos seus costumes, não diria jamais que era a senhora absoluta de um corpo de estatua, para ser copiado pelo cinzel mais inspirado... Não se julgue a felicidade dos fins pelas venturas que povoam a estrada por que trilhamos. Muitas vezes, um momento de tranquillidade{181} agora é a sementeira de um incommensuravel estado de attribulações mais tarde. Madame Berthon despejava invejas a todas as mulheres do seu conhecimento. Desta caza tirava ella os meios de sua subsistencia. Vi-a muitas noites, e sonhei com o taciturno aspecto de seu semblante. Taciturno, sim, porque, no meio da mais ruidosa alegria, aquella mulher era como uma virgem pallida a que nenhum excesso dê o rubor das faces... Sorria, mas o seu sorrizo revestia-se de uma algoz cambiante de tristeza. Tinha a côrte de poderosos pretendentes, mas decidia-se ordinariamente pelos mais fracos. Se ouvia a repulsa de alguem, era, ao depois, de um excessivo carinho para com o repellido. E, se a ninguem promettia, a nenhum negava, e a todos faltava... Curiosissima mulher! Os seus habitos eram os de uma leviana, mas a sua alma contrastava com a sua existencia costumeira. Exquisita mulher, Odorico, muito exquisita, senhora de muitos corações se tivesse querido, entretanto escrava de um só que a levou, finalmente, à sepultura. Durante algum tempo a sua tragedia foi a nota do dia. Um assassinio e um suicidio...

—Foi sempre assim: em cada mulher ha o germen de uma fatalidade, mas, em{182} algumas, ha a sementeira de muitos casos fataes.

—Espera, Odorico, espera. Não condemnes a desventurada pelos primeiros tons de sua historia. Juiz mais severo do que eu, não conhecerás, por certo, para o julgamento dessa gente que pisa sobre escandalos, que veste escandalos, e que escandalisa o proprio escandalo. De ordinario, a mulher é o algoz, parecendo a extrema fraqueza. Neste caso, porem, Madame Berthon foi, apenas, a victima. Se crime ella teve, foi o de amar o homem que a assassinaria mais tarde. E amou... conjugalmente, porque nunca trahiu aquelle com quem cohabitava. Ás deshoras, lá para as tantas, assim numa hora de madrugada quando o vigilante gallo de Ares cantaria tatalando, como dois esposos, ella e o amante daqui sahiam e recolhiam-se calma e honestamente. De feio que era, o homem haveria de enciumar-se até de si mesmo, descrendo de ser elle o galan de uma femea tão geitosa. No mundo dos amores, ha, entretanto, essa especie de compensações: o feio é conjugado com o bonito, e reciprocamente, o bonito com o feio... Dahi a naturalidade daquella união de Gaspar com a Madame Berthon. Mais de noventa noites durou aquelle consorcio espontaneo.{183} Aqui vinha eu, e naturalmente, cortejava à mulher gentil, espionando sempre o amante. Os homens todos, Odorico, saudavam-na com um mesmo enthusiasmo viril, como os armentios saudariam, com ardente fé, a vinda do outomno, porque é a estação das colheitas. Na manhan de um domingo, porem, no ninho dos dois amantes, là para as aguas furtadas de um sobrado, foi ouvido um movimento ouccubo. Visinhos, espicaçados pela anormalidade, attenderam ao que se passava na moradia de Madame Berthon. Depois de acalorada discussão, durante a qual o assassino descera as vidraças, cautelosamente, para não ser ouvido pelos extranhos, os estampidos de dois tiros indicaram um triste acontecimento no interior daquella caza. Momentos após, Gaspar, conduzindo uma bolsa de mão, descia os dois lances de escadas, abria as portas, e sahia, meticuloso e tranquillo, trancando às suas costas a entrada no sobrado em que commettera o assassinato de Madame Berthon. E, como um homem feliz, là se fôra rua abaixo. Quem o visse, não lhe diria o autor de um crime, muito menos quando, no desempenho de um habito, asseiava os botins, e olhava serenamente o movimento das ruas...{184}

—Revolto-me jà contra esse perverso.