—Pois bem! O movel do crime fôra o roubo e todas as poupanças daquella operosa mulher estavam furtadas na bolsa que Gaspar segurava zelosamente. Em torno da caza de Madame Berthon, com o caso extranho dos dois tiros, populares encostavam-se nas redondezas do edificio suspeito, arrastando-se como lemures ámerios em trilhas brancas de areiaes desertos. Vozes surdas contavam as supposições de um crime; a suspeita avolumou-se... O rochedo nú da desconfiança vestiu-se fartamente com os ouropeis das espumas brancas dos commentarios. Pelas janellas descidas, olhos mais perspicazes queriam ver logo os indicios vivos do barbaro crime. E o tempo era bastante para que o assassino asseiasse as botas e penetrasse no Hotel onde tinha hospedagem official. Nos populares tressuou a vontade da denuncia, e um indicou a presença proxima de um delegado. Era preciso animo tambem para se ir retirar a fescennina autoridade do seu aninhamento concupiscente ao lado de uma concubina... Tudo o mais foi rapido. Num instante abriu-se com violencia a entrada. Um obstaculo appareceu: a porta estava presa, como que escorada por dentro. Que seria que obstava o seu movimento?{185} Uma cabeça affoita enfiou-se por uma nesga, e voltou transfigurada, annunciando sómente: «Está morta». Outros typos mais curiosos vieram, ageitaram-se e penetraram com a autoridade. Estatelada sobre o chão, Madame Berthon, numa nueza arrebatadora ainda não tinha a gelidez dos cadaveres, mas já era morta. O seu thorax derramava coalhos de sangue escarlate. E sobre as suas fórmas nuas, nada, senão as meias presas com atilios de fitas rubras, e as pequenas sapatinhas...
—Que miseria!
—Já conheceste a victima. Dahi por diante a acção foi sobre o agente. A perseguição popular foi ter ao Hotel, e, quando os primeiros perseguidores foram percebidos, com a mesma arma, alvejando as suas proprias temporas, Gaspar era um suicida... Não calculas a impressão que esse crime deixou no meu espirito. Eu vi a nudez de Madame Berthon, e senti que o assassino não tivesse ficado vivo para pagar com a reclusão da vida a barbaridade do assassinio de uma mulher, cujo corpo esculptural seria capaz, como o de Mnezarete, de vencer austeros Areopagos... se desvendado fôsse tal como eu o vi... E nota, Odorico, que um corpo{186} morto, por mais bello que seja, é menos do que o vivo, porque, quando nada, lhe falta essa humidade quente que é o fluido mais sensual do mundo. Deante de carnes como as de Madame Berthon, só naturezas muito fortes não cederão à necrophilia... Então ella que possuia um nevo sobre o quadril direito...
—Sensualizas tudo, Wenceslau!
—E que é que escapa, neste mundo, da sensualidade? A propria morte, como tu deves saber, é um pedaço de sensualismo microbiano... Quantas fecundações damnadas na hora extrema de um ser?!... Porque, senão pela força dos sexos, baqueou a inditosa Madame Berthon?!... Recorre à instancia do amor que toparàs com a absolvição da mulher, e carregarás a mão na dosagem da condemnação do homem algoz.
—Comtudo, sou contra sempre a defesa da mulher. Esta tem sido condescendentemente tratada. Menos liberdade para ella, mais rigor no senhorio dos homens.
—E como influiria tudo isto para que Gaspar não victimasse Madame Berthon?
—Seria preciso, Wenceslau, que eu te contasse a historia desde o começo do mundo, e é coisa que não se sabe é a data da primeira{187} traição da mulher, de tão distantes tempos vem ella.
—Andas atrazado nisto, Odorico. A mulher teve o seu primeiro acto numa traição do homem, e formada de uma traição, porque foi necessario que Adão adormecesse para que Jehovah, trahindo à perfectibilidade da sua obra, lhe tirasse uma costella do corpo afim de formar Eva, ella não poderia ser contraria à sua origem...
—És rigoroso demais...