—... rendi-me voluntariosamente a um dos muitos homens que me faziam a côrte, sabendo-me uma mulher, infeliz como outras muitas, esquecida no lar pelo marido libertino...
—É demais!
—Porque tu o quizeste. Abandonaste a tua caza. Dias inteiros passei num isolamento de aborrecer. Entretanto, fôra diverso o teu proceder nos primeiros tempos de nosso casamento. Quando sahias, mal eu te pensava na{56} rua, mal eu começava a sentir a tua ausencia, estavas de volta. Fui-me habituando a essa constancia ficticia. No dia em que te retardaste, pela primeira vez, chorei e nem soube, porque nunca te perguntei, a hora em que tornaste da rua... Onde estiveste? Nunca quiz saber. E, até hoje, nunca te pedi a menor palavra sobre o teu procedimento...
—E como homem, senhor pleno de seus actos, eu te negaria informações.
—Pois bem! Para evitar essa negação, nunca t'as pedi, sciente e consciente de que sobre o meu procedimento, dentro do nosso lar, não te devo satisfacções... São ellas por ellas...
—Abusas...
—Corrige-me se puderes... Não és o meu marido?... Toma conta dos meus actos! Soubeste que te trahi?... Mata-me, ou expulsa-me de teu lar. Faze o que entenderes, certo de que atraz de mim haverá quem vingue as tuas incontinencias e perversidades...
—E sabes quem é a minha amante?
—Se sei, Simeão?!...
—Crias um conhecimento para justificares a tua falta. Mentes, pois: não conheces ninguem...