—Vou contar-te, pois, a minha historia. Lembras-te de que professei mocinho?

—Se me lembro!...

—Pois bem! O meu acontecimento foi de alguns annos antes... Eu era menino, e se me dissessem que o heliantho foi obra da pretenção e do desabuso de Hephaestos querendo, como um Deus, criar sóes e mais sóes, todo o credito eu daria, porque não tinha discernimento para me salvar das tentações humanas...

—Que são as verdadeiras tentações da serpente no Paraiso...

—Fazendo estudos, eu ia, quotidianamente, para os cursos, como o carreiro que passe todo o dia pela mesma estrada em busca de accendalhas e ramos para sustentar a lareira aquecida e feliz... Tinha eu ambições de saber... Embriagavam-me os livros, e nelles mesmos comecei de ler as primeiras cousas de amor...

—E não lias o Cantico dos Canticos!

—Ah! não! Fui sabendo que, como Eva fôra criada para acompanhar o primeiro homem, a mulher vivia para funccionar no amor. Os{131} arrebatamentos vieram pouco a pouco. E dei para olhar as raparigas com olhos de escaldo...

—Que maganão!

—E não peco porque te falo a mais pura verdade. No rebanho de nossas amizades havia uma ovelhinha, que, por ser linda e mansa, recebia o cortejo dos mocinhos de minha idade. Se as suas companheiras não tinham as calenturas de um amor, ella abrasava na abundancia das pretenções exaltadas: todos à porfia lhe disputavam a preferencia... Tolamente eu era conduzido entre os fascinados pelo olhar da moçoila cortejada.

—Estou vendo que eras o preferido...