—Guarda-te para receberes os do Consul, senhora Consulêza...
—Octavio, para que sentes ciumes desse devasso? que te importa que eu lhe tenha promettido uma noite, quando não lh'a darei por preço nenhum?
—Ciumes?!... Não os sinto dos outros homens, porque nenhum delles logrará de ti as venturas e as concessões que eu tenho gozado... Nem mesmo do Consul... Se um prazer novo junto de ti elle experimentar, deve dizer sempre que antes delle provei-o eu.{146} Tenho ciumes, Nina, do que tu vestes, do que te pinta, do que te adorna, do que mordes, do que fitas... Se eu pudesse, haveria de ser o tecido com que se fazem os teus vestidos. Invejo delles a sorte de cingirem-te o corpo e serem confidentes dos teus nervos e das tuas pulsações. Tenho ciúmes das flores que exornam os teus cabellos, porque sómente ellas passam o deliquio de uma vida inteira, enlanguecidas do teu amor. Tenho ciúmes do fructo que mordes, deante da grande fortuna de ser apertado entre os teus dentes luxuriosos. Inquieto-me com a sorte do perfume que te inebria, porque sómente elle atravessa as tuas fórmas e vai arrebatar-te na essencia do teu ser. Tenho inveja da palavra que proferes, porque sómente ella vive fecundada da humidade quente dos teus labios. Por tudo isto, eu quereria ser o somno que te fecha as palpebras, porque participaria das felicidades todas dos teus sonhos; a agua que te banha as fórmas, porque desvendaria os immensos segredos e mysterios de tua belleza unica, e o riso que te doura o semblante, porque teria o dominio do mundo inteiro. Recordas-te, Nina, do instante magico em que pela primeira vez nos pertencemos mutuamente? São de véras muito irmans as almas que tocam à{147} meta de uma ventura no mesmo instante... e as nossas duas...
—De lembrar isto, criei uma lenda. Sou eu a mulher que conseguiu o poder de duas virgindades, uma sacrificada no inicio da puberdade, com a inclemencia de Nausithêa deante do deus Priapo, e a outra, concedida ao amante, no fervor do gôzo, entre os teus braços, naquella noite, Octavio, naquella primeira noite...
—Desgraçadamente, jà eu, então, poderia ter sentido por toda a parte de teu corpo, o halito bafiento do outro amante.
—O outro amante?!... Tenho-o, e é como se elle não existisse. Tenho-o porque tu consentes que eu o tenha. E mais nada. Contra o seu amor, protestam os meus seios, bem diversos na tua presença do que são na delle. Deante de ti, as minhas pomas parecem florescer como os jasmineiros em deliciosas noites de luar, como as laranjeiras em uberosos tempos de outomno. Deante delle... nem perdem na seccura e esterilidade os pinheiros agrestes que vegetam nas fendas dos rochedos... És a aguia que se avisinha do sol e beija os astros nos labios. Elle é o verme que rasteja sobre o rochedo onde borda todos os seus desejos...{148}
—Mas, para elle houve um dia venturoso: a mulher não se cede a um homem sem a experiencia de um prazer. E tu tiveste esse prazer...
—Acertaste. Não sabes, porem, que os olhos da mulher voluvelmente procuram por toda a parte o homem e que só ao depois de muitos descobre o procurado? Quando topei comtigo, jà o tinha no convivio de suas esquisitices.
—Tu és formosa, Nina, como a flor de myrtho! Os gregos te diriam divinamente presagiada porque nasceste nas vesperas das Aphrodisias! Quero enlanguescer ao som de tua voz contando-me os teus mais baixos amores...
—Bem sei que os homens todos são uns animaes. Uns, porem, são menos do que outros. Dahi esses amores que tu queres ouvir. Sabes, Octavio, que os cãis, nesse mistér, são os equivalentes de certos homens? E que elles são os seres que mais baixos amores fruem? O Consul ama como um cão... Os seus labios, como os de Pan, seriam capazes de devorar as virgindades, se as virgens recebessem os seus beijos...