—Como elle range os dentes?!...

—Todo o dia, a mesma coisa... Rompendo a madrugada, ia para as cavallariças despertar aquelles miseraveis todos que dormiam, como massas de feno, nos recantos das mangedouras. Ás vezes, chovia como um diluvio. E eu, com o corpo quente da cama, cortava o pateo, mettido no meu capote de lan, e, menos feliz do que os meus assalariados{155} que ainda dormiam, tiritava, muitas vezes, de frio. A actividade, porem, dava-me calor e forças. Ora, muito pequeno comecei a vida nas terras da Beira, de onde sahi, num dia de inverno, ha mais de trinta annos. Nesse dia, a avósinha e a mãi-Geralda levaram-me até à caza do moço que me trouxe para aqui. Ah! Deus lhe dê o reino dos céus, jà que na terra eu nada lhe pude dar... Rim... rim... rim... rim... Bella pessôa, generoso ao desperdicio... Que barulho é esse que ouço de instante a instante?

—São os trabalhadores no terreiro.

—Sahiram hoje os vehiculos?

—Sahiram todos.

—Mas, esse ruido parece-me muito dentro de caza.

—Talvez os cãis...

—Não me veiu ver hoje o Tupy. Tem sido esse canzarrão o meu maior amigo. Todas as manhans salta sobre o meu leito e acaricia-me as mãos. Por onde andará elle que hoje se esqueceu de mim?

—Prendi-o, inda ha pouco. Espera-se o medico, e...

—Nem pense nisso: o pobre animal se ladra não morde. Vigia-me a caza e desconhece os extranhos.{156}