—Repugnante!...
—Ah! deixa-o, deixa-o! O meu amante és tu!... Toda esta noite serei tua como nas demais...
Os rasgados olhos da hervoeira, luzentes nas sombras dos seus cabellos de oiro como espigas de trigo maduro, pareceram a fonte de todas as volupias da terra, como os córnos de Almatheia foram de todas as riquezas do mundo...{150}
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[DE COMO O AVARENTO MORREU...]
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[DE COMO O AVARENTO MORREU...]
Quarto humilde, humido e infecto, mal illuminado, e sem moveis:—uma enxerga, e sobre esta, em inquieta agonia, MANUEL CARLOS proferia blasphemias.
Ao seu lado, a NEGRA, que era uma amante retinta, carnuda e fortalecida com as sabugens da avareza, acompanhava com os olhos cautelosos a agitação do moribundo angustiado.
Doutro commodo da mansarda, partia um movimento suspeito, mal percebido, a principio, pelo enfermo, que entrava numa ultima reacção da vida contra a morte.
Nesta hora, da doença, por entre as chocantes palavras de MANUEL CARLOS, ouvia-se, tambem, o rim-rim-rim{154} dos seus dentes que rangiam como uma lima activa sobre um pedaço de ferro...
—E creio que me vou mesmo! Nem sei como se morre assim, quando muito dinheiro ainda eu poderia accumular dentro do meu cofre. A vida é um pedaço de ouro comprado com um milhão de moedas... A morte é uma ladra que nos furta, para esbanjar entre muitos, o ouro que tanto custa a reunir... Sou rico! Digo-o com um cordial prazer. Tambem trabalhei como uma alma possessa. Não houve domingo nem dia santo, que me déssem descanso, à chuva e ao sol, alta madrugada e avançada noite... Rim... rim... rim... rim...