—É fazer o muro! dizia João Romão, sacudindo os hombros.
—Não faço! replicava o outro. Se elle é questão de capricho, eu tambem tenho capricho!
Em compensação, não cahia no quintal do Miranda gallinha ou frango, fugidos do cercado do vendeiro, que não levasse immediato sumiço. João Romão protestava contra o roubo em termos violentos, jurando vinganças terriveis, fallando em dar tiros.
—Pois é fazer um muro no gallinheiro! repontava o marido de Estella.
D'ahi a alguns mezes, João Romão, depois de tentar um derradeiro esforço para conseguir algumas braças do quintal do vizinho, resolveu principiar as obras da estalagem.
—Deixa estar, conversava elle na cama com a Bertoleza; deixa estar que ainda lhe hei de entrar pelos fundos da casa, se é que não lhe entre pela frente! Mais cedo ou mais tarde como-lhe, não duas braças, mas seis, oito, todo o quintal e até o proprio sobrado talvez!
E dizia isto com uma convicção de quem tudo póde e tudo espera da sua perseverança, do seu esforço inquebrantavel e da fecundidade prodigiosa do seu dinheiro, dinheiro que só lhe sahia das unhas para voltar multiplicado.
Desde que a febre de possuir se apoderou d'elle totalmente, todos os seus actos, todos, fosse o mais simples, visavam um interesse pecuniario. Só tinha uma preoccupação: augmentar os bens. Das suas hortas recolhia para si e para a companheira os peiores legumes, aquelles que, por máos, ninguem compraria; as suas gallinhas produziam muito e elle não comia um ovo, do que no emtanto gostava immenso; vendia-os todos e contentava-se com os restos da comida dos trabalhadores. Aquillo já não era ambição, era uma molestia nervosa, uma loucura, um desespero de accumular, de reduzir tudo a moeda. E seu typo baixote, socado, de cabellos á escovinha, a barba sempre por fazer, ia e vinha da pedreira para a venda, da venda ás hortas e ao capinzal, sempre em mangas de camisa, de tamancos, sem meias, olhando para todos os lados, com o seu eterno ar de cobiça, apoderando-se, com os olhos, de tudo aquillo de que elle não podia apoderar-se logo com as unhas.
Entretanto, a rua lá fóra povoava-se de um modo admiravel. Construia-se mal, porém muito; surgiam chalets e casinhas da noite para o dia; subiam os alugueis; as propriedades dobravam de valor. Montára-se uma fabrica de massas italianas e outra de vélas, e os trabalhadores passavam de manhã e ás Ave-Marias, e a maior parte d'elles ia comer á casa de pasto que João Romão arranjára aos fundos da sua venda. Abriram-se novas tavernas; nenhuma, porém, conseguia ser tão afreguezada como a d'elle. Nunca o seu negocio fora tão bem, nunca o finorio vendêra tanto; vendia mais agora, muito mais, que nos annos anteriores. Teve até de admittir caixeiros. As mercadorias não lhe paravam nas prateleiras; o balcão estava cada vez mais lustroso, mais gasto. E o dinheiro a pingar, vintem por vintem, dentro da gaveta, e a escorrer da gaveta para a burra, aos cincoenta e aos cem mil réis, e da burra para o banco, aos contos e aos contos.
Afinal, já lhe não bastava sortir o seu estabelecimento nos armazens fornecedores; começou a receber alguns generos directamente da Europa: o vinho, por exemplo, que elle d'antes comprava aos quintos nas casas de atacado, vinha-lhe agora de Portugal ás pipas, e de cada uma fazia tres com agua e cachaça; e despachava facturas de barris de manteiga, de caixas de conserva, caixões de phosphoros, azeite, queijos, louça e muitas outras mercadorias.