Foi um forrobodó valente. A Rita Bahiana essa noite estava de veia para a coisa; estava inspirada! divina! Nunca dansára com tanta graça e tamanha lubricidade!
Tambem cantou. E cada verso que vinha da sua bocca de mulata era um arulhar choroso de pomba no cio. E o Firmo, bebado de volupia, enroscava-se todo ao violão; e o violão e elle gemiam com o mesmo gosto, grunhindo, ganindo, miando, com todas as vozes de bichos sensuaes, n'um desespero de luxuria que penetrava até ao tutano com lingoas finissimas de cobra.
Jeronymo não poude conter-se: no momento em que a bahiana, offegante de cansaço, cahio exhausta, assentando-se ao lado d'ella, o portuguez segredou-lhe com a voz estrangulada de paixão:
—Meu bem! se você quizer estar commigo, dou uma perna ao demo!
O mulato não ouvio, mas notou o cochicho e ficou, de má cara, a rondar disfarçadamente o rival.
O canto e a dansa continuavam todavia, sem afrouxar. Entrou a das Dôres. Nênêm, mais uma amiga sua, que fôra passar o dia com ella, rodavam de mãos nas cadeiras, rebolando em meio de uma volta de palmas cadenciadas, no acompanhamento do rhythmo requebrado da musica.
Quando o marido de Piedade disse um segundo cochicho á Rita, Firmo precisou empregar grande esforço para não ir logo ás do cabo.
Mas, lá pelo meio do pagode, a bahiana cahira na imprudencia de derrear-se toda sobre o portuguez e soprar-lhe um segredo, requebrando os olhos. Firmo, de um salto, aprumou-se então defronte d'elle, medindo-o de alto a baixo com um olhar provocador e atrevido. Jeronymo, tambem posto de pé, respondeu altivo com um gesto igual.
Os instrumentos calaram-se logo. Fez-se um profundo silencio. Ninguem se mexeu do logar em que estava. E, no meio da grande roda, illuminados amplamente pelo capitoso luar de Abril, os dois homens, perfilados defronte um de outro, olhavam-se em desafio.
Jeronymo era alto, espadaúdo, construcção de touro, pescoço de Hercules, punho de quebrar um côco com um murro: era a força tranquilla, o pulso de chumbo. O outro—franzino, um palmo mais baixo que o portuguez, pernas e braços seccos, agilidade de maracajá: era a força nervosa; era o arrebatamento que tudo desbarata no sobresalto do primeiro instante. Um, solido e resistente; o outro, ligeiro e destemido; mas ambos corajosos.