—Vem! Vem! supplicava a donzella, apresentando o corpo. Pousa um instante em mim! Queima-me a carne no calor das tuas azas!
E a rosa, que a tinha ao collo, é que parecia fallar e não ella. De cada vez que a borboleta se avisinhava com as suas negaças, a flôr arregaçava-se toda, dilatando as petalas, abrindo o seu pistillo vermelho e avido d'aquelle contacto com a luz.
—Não fujas! Não fujas! Pousa um instante!
A borboleta não pousou; mas, n'um delirio, convulsa de amor, sacudio as azas com mais impeto e uma nuvem de poeira doirada desprendeu-se sobre a rosa, fazendo a donzella soltar gemidos e suspiros, tonta de gosto sob aquelle effluvio luminoso e fecundante.
N'isto, Pombinha soltou um ai formidavel e despertou sobresaltada, levando logo ambas as mãos ao meio do corpo. E feliz, e cheia de susto ao mesmo tempo, a rir e a chorar, sentio o grito da puberdade sahir-lhe afinal das entranhas, em uma onda vermelha e quente.
A natureza sorrio-se commovida. Um sino, ao longe, batia alegre as doze badaladas do meio dia. O sol, victorioso, estava a pino e, por entre a copagem negra da mangueira, um dos seus raios descia em fio de oiro sobre o ventre da rapariga, abençoando a nova mulher que se formava para o mundo.
[XII]
Pombinha ergueu-se de um pulo e abrio de carreira para casa. No logar em que estivera deitada o capim verde ficou matizado de pontos vermelhos. A mãe lavava á tina, ella chamou-a com instancia, enfiando cheia de alvoroço pelo numero 15. E ahi, sem uma palavra, ergueu a saia do vestido e expôz a Dona Isabel as suas fraldas ensanguentadas.
—Veio!! perguntou a velha com um grito arrancado do fundo d'alma.
A rapariga meneou a cabeça affirmativamente, sorrindo feliz e enrubecida.