—Posso então fechar a carta?...
—Está bom ... resmungou o ferreiro, decidindo-se. Vá lá! Diga-lhe que...
—Que...
Houve um silencio, no qual o desgraçado parecia arrancar de dentro uma phrase que, no emtanto, era a unica idéa que o levava a dirigir-se á mulher. Afinal, depois de coçar mais vivamente a cabeça, gaguejou com a voz estrangulada de soluços:
—Diga-lhe que ... se ella quizer tornar pra minha companhia ... que póde vir... Eu esqueço tudo!
Pombinha, impressionada pela transformação da voz d'elle, levantou o rosto e vio que as lagrimas lhe desfilavam duas a duas, tres a tres, pela cara, indo afogar-se-lhe na moita cerdosa das barbas. E, coisa estranha, ella, que escrevera tantas cartas n'aquellas mesmas condições; que tantas vezes presenciara o choro rude de outros muitos trabalhadores do cortiço, sobresaltava-se agora com os desalentados soluços do ferreiro.
Porque, só depois que o sol lhe abençoou o ventre; depois que nas suas entranhas ella sentio o primeiro grito de sangue de mulher, teve olhos para essas violentas miserias dolorosas, a que os poetas davam o bonito nome de amor. A sua intellectualidade, tal como seu corpo, desabrochara inesperadamente, attingindo de subito, em pleno desenvolvimento, uma lucidez que a deliciava e surprendia. Não a commovêra tanto a revolução physica. Como que n'aquelle instante o mundo inteiro se despia á sua vista, de improviso esclarecida, patenteando-lhe todos os segredos das suas paixões. Agora, encarando as lagrimas do Bruno, ella comprehendeu e avaliou a fraqueza dos homens, a fragilidade d'esses animaes fortes, de musculos valentes, de patas esmagadoras, mas que se deixavam encabrestar e conduzir humildes pela soberana e delicada mão da fêmea.
Aquella pobre flôr de cortiço, escapando á estupidez do meio em que desabotoou, tinha de ser fatalmente victima da propria intelligencia. Á mingoa de educação, seu espirito trabalhou á revelia, e atraiçoou-a, obrigando-a a tirar da substancia caprichosa da sua phantasia de moça ignorante e viva, a explicação de tudo que lhe não ensinaram a ver e sentir.
Bruno retirou-se com a carta. Pombinha pousou os cotovelos na meza e tulipou as mãos contra o rosto, a scismar nos homens.
Que estranho poder era esse, que a mulher exercia sobre elles, a tal ponto, que os infelizes, carregados de deshonra e de ludibrio, ainda vinham covardes e supplicantes mendigar-lhe o perdão pelo mal que ella lhes fizera?...