Pombinha surgio á porta de casa, já prompta para desferir o grande vôo; de véo e grinalda, toda de branco, vaporosa, linda. Parecia commovida; despedia-se dos companheiros atirando-lhes beijos com o seu ramalhete de flores artificiaes. Dona Isabel chorava como criança, abraçando as amigas, uma por uma.

—Deus lhe ponha virtude! exclamou a Machona. E que lhe dê um bom parto, quando vier a primeira barriga!

A noiva sorria, de olhos baixos. Uma fimbria de desdem toldava-lhe a rosada candura de seus labios. Encaminhou-se para o portão, cercada pela bênção de toda aquella gente, cujas lagrimas rebentaram afinal, feliz cada um por vel-a feliz e em caminho da posição que lhe competia na sociedade.

—Não! aquella não nascera para isto!... sentenciou o Alexandre, retorcendo o reluzente bigode. Seria lastima se a deixassem ficar aqui!

O velho Liborio, cascalhando uma risada decrepita, queixou-se de que o maganão do Costa lhe passara a perna, roubando-lhe a namorada.

Ingrata! Elle que estava disposto a fazer uma asneira!

Nênêm deu uma corrida até á noiva, na occasião em que esta chegava á carruagem e, estalando-lhe um beijo na boca, pedio-lhe com empenho que se não esquecesse de mandar-lhe um botão da sua grinalda de flores de larangeira.

—Diz que é muito bom para quem deseja casar!... e eu tenho tanto medo de ficar solteira...! É todo o meu susto!

[XIII]

Á proporção que alguns locatarios abandonavam a estalagem, muitos pretendentes surgiam disputando os commodos desalugados. Delporto e Pompeu foram varridos pela febre amarella e tres outros italianos estiveram em risco de vida. O numero dos hospedes crescia, os casulos subdividiam-se em cubiculos do tamanho de sepulturas, e as mulheres iam despejando crianças com uma regularidade de gado procreador. Uma familia, composta de mãe viuva e cinco filhas solteiras, das quaes d'estas a mais velha tinha, trinta annos e a mais moça quinze, veio occupar a casa que Dona Isabel esvasiou poucos dias depois do casamento de Pombinha.