Só lá pelas dez e tanto da noite foi que João Romão, depois de certificar-se de que Bertoleza ferrára n'um somno de pedra, resolveu dar balanço ás garrafas de Liborio. O diabo é que elle tambem quasi que se não aguentava nas pernas e sentia os olhos a fecharem-se-lhe de cansaço. Mas não podia socegar sem saber quanto ao certo apanhára do avarento.

Accendeu uma véla, foi buscar a immunda e preciosa trouxa, e carregou com esta para a casa de pasto ao lado da cozinha.

Depôz tudo sobre uma das mezas, assentou-se, e principiou a tarefa. Tomou a primeira garrafa, tentou despejal-a, batendo-lhe no fundo; foi-lhe porém necessario extrahir as notas, uma por uma, porque estavam muito socadas e peganhentas de bolor. A proporção que as fisgava, ia logo as desenrolando e estendendo cuidadosamente em maço, depois de seccar-lhes a humidade ao calor das mãos e da véla. E o prazer que elle desfructava n'este serviço punha-lhe em jogo todos os sentidos e afugentava-lhe o somno e as fadigas. Mas, ao passar á segunda garrafa, soffreu uma dolorosa decepção: quasi todas as cedulas estavam já prescriptas pelo thesouro; veio-lhe então o receio de que a melhor parte do bôlo se achasse inutilisada; restava-lhe todavia a esperança de que fosse aquella garrafa a mais antiga de todas e a peior por conseguinte.

E continuou com mais ardor o seu delicioso trabalho.

Tinha já esvaziado seis, quando notou que a véla, consumida até o fim, bruxuleava a extinguir-se; foi buscar outra nova e vio ao mesmo tempo que horas eram. «Oh! como a noite corrêra depressa!...» Tres e meia da madrugada. «Parecia impossivel!»

Ao terminar a contagem, as primeiras carroças passavam lá fóra na rua.

—Quinze contos, quatrocentos e tantos mil reis!... disse João Romão entre dentes, sem se fartar de olhar para as pilhas de cedulas que tinha defronte dos olhos.

Mas oito contos e seiscentos eram em notas já prescriptas. E o vendeiro, á vista de tão bella somma, assim tão estupidamente compromettida, sentio a indignação de um roubado. Amaldiçoou aquelle maldito velho Liborio por tamanho relaxamento; amaldiçoou o governo porque limitava, com intenções velhacas, o praso da circulação dos seus titulos; chegou até a sentir remorsos por não se ter apoderado do thesouro do avarento, logo que este, um dos primeiros moradores do cortiço, lhe appareceu com o colchão as costas, a pedir chorando que lhe dessem de esmola um cantinho onde elle se mettesse com sua miseria. João Romão tivera sempre uma vidente cobiça sobre aquelle dinheiro engarrafado; fariscára-o desde que fitou de perto os olhinhos vivos e redondos do abutre decrepito, e convenceu-se de todo, notando que o miseravel dava prompto sumisso a qualquer moedinha que lhe cahia nas garras.

—Seria um acto de justiça! concluio João Romão; pelo menos seria impedir que todo este pobre dinheiro apodrecesse tão barbaramente!

Ora adeus! mas sete ricos continhos quasi inteiros ficavam-lhe nas unhas. «E depois, que diabo! os outros assim mesmo haviam de ir com geito... Hoje impingiam-se dois mil reis: amanhã cinco. Não nas compras, mas nos trocos... Porque não? Alguem reclamaria, mas muitos enguliriam a bucha... Para isso não faltavam estrangeiros e caipiras!... E demais, não era crime!... Sim! se havia n'isso ladroeira, queixassem-se do governo! o governo é que era o ladrão!