Dona Estella acompanhou-os a distancia, vagarosamente, affectando preoccupação em compor um ramalhete, cujas flores ella ia colhendo com muita graça, ora toda vergada sobre as plantas rasteiras, ora pondo-se na pontinha dos pés para alcançar os heliotropos e os manacás.

Henrique seguio o Botelho até ao quarto d'este, conversando sem mudar de assumpto.

—Você então não falia n'isto, hein? Jura? perguntou-lhe.

O velho tinha já declarado, a rir, que os pilhára em flagrante e que ficára bom tempo a espreita.

Fallar o que, seu tolo?... Pois então quem pensa você que eu sou?... Só abrirei o bico se você me der motivo para isso, mas estou convencido que não dará... Quer saber? eu até sympathiso muito com você, Henrique! Acho que você é um excellente menino, uma flôr! E digo-lhe mais: hei de proteger os seus negocios com Dona Estella...

Fallando assim, tinha-lhe tomado as mãos e affagava-as.

—Olhe, continuou, acariciando-o sempre; não se metta com donzellas, entende?... São o diabo! Por dá cá aquella palha fica um homem em apuros! agora quanto ás outras, papo com ellas! Não mande nenhuma ao vigario, nem lhe dôa a cabeça, porque, no fim de contas, nas circumstancias de Dona Estella, é até um grande serviço que você lhe faz! Meu rico amiguinho, quando uma mulher já passou dos trinta e pilha a geito um rapazito da sua idade, é como se descobrisse oiro em pó! sabe-lhe a gaitas! Fique então sabendo de que não é só a ella que você faz o obsequio, mas tambem ao marido: quanto mais escovar-lhe você a mulher, melhor ella ficará de genio, e por conseguinte melhor será para o pobre homem, coitado! que tem já bastante com que se aborrecer lá por baixo, com os seus negocios, e precisa de um pouco de descanço quando volta do serviço e mette-se em casa! Escove-a, escove-a! que a porá macia que nem velludo! O que é preciso é muito juizinho, percebe? Não faça outra criançada como a de hoje e continue para diante, não só com ella, mas com todas as que lhe cahirem debaixo da aza! Vá passando! menos as de casa aberta, que isso é perigoso por causa das molestias; nem tão pouco donzellas! Não se metta com a Zulmira! E creia que lhe fallo assim, porque sou seu amigo, porque o acho sympathico, porque o acho bonito!

E acarinhou-o tão vivamente d'esta vez, que o estudante, fugindo-lhe das mãos, affastou-se com um gesto de repugnancia e desprezo, emquanto o velho lhe dizia em voz comprimida:

—Olha! Espera! Vem cá! Você é desconfiado!...

[III]