Todavia, tanto o Miranda, como o outro, não se animavam a abrir o bico a esse respeito com o visinho e contentavam-se em boquejar entre si mysteriosamente, palpitando ambos por ver a sahida que o vendeiro acharia para semelhante situação.

Maldita preta dos diabos! Era ella o unico defeito, o senão, de um homem tão importante e tão digno!

Agora, não se passava um domingo sem que o amigo de Bertoleza fosse jantar á casa do Miranda. Iam juntos ao theatro. João Romão dava o braço á Zulmira, e, procurando galanteal-a e mais ao resto da familia, desfazia-se em obsequios brutaes e dispendiosos, com uma franqueza exagerada que não olhava gastos. Se tinham de tomar alguma coisa, elle fazia vir logo tres, quatro garrafas ao mesmo tempo, pedindo sempre o triplo do necessario e accumulando compras inuteis de doces, flôres e tudo que apparecia. Nos leilões das festas de arraial era tão feroz a sua febre de obsequiar á gente do Miranda, que nunca voltavam para casa sem um homem atraz, carregado com os mimos que o vendeiro arrematava.

E Bertoleza bem que comprehendia tudo isso e bem que estranhava a transformação do amigo. Elle ultimamente mal se chegava para ella e, quando o fazia, era com tal repugnancia, que antes o não fizesse. A desgraçada muita vez sentia-lhe cheiro de outras mulheres, perfumes de cocotes estrangeiras, e chorava em segredo, sem animo de reclamar os seus direitos. Na sua obscura condição de animal de trabalho, já não era amor o que a misera desejava, era sómente confiança no amparo da sua velhice, quando de todo lhe faltassem as forças para ganhar a vida. E contentava-se em suspirar no meio de grandes silencios durante o serviço de todo o dia, covarde e resignada, como seus paes que a deixaram nascer e crescer no captiveiro. Escondia-se de todos, mesmo da gentalha do frege e da estalagem, envergonhada de si propria, amaldiçoando-se por ser quem era, triste de sentir-se a mancha negra, a indecorosa nodoa d'aquella prosperidade brilhante e clara.

E, no emtanto, adorava o amigo; tinha por elle o fanatismo irracional das caboclas do Amazonas pelo branco a que se escravisam, d'essas que morrem de ciumes, mas que tambem são capazes de matar-se para poupar ao seu idolo a vergonha do seu amor. O que custava áquelle homem consentir que ella, uma vez por outra, se chegasse para junto d'elle? Todo o dono, nos momentos de bom humor, affaga o seu cão... Mas qual! o destino de Bertoleza fazia-se cada vez mais estreito e mais sombrio; pouco a pouco deixara totalmente de ser a amante do vendeiro, para ficar sendo só uma sua escrava. Como sempre, era a primeira a erguer-se e a ultima a deitar-se; de manhã escamando peixe, á noite vendendo-o á porta, para descançar da trabalheira grossa das horas de sol; sempre sem domingo nem dia santo, sem tempo para cuidar de si, feia, gasta, immunda, repugnante, com o coração eternamente emprenhado de desgostos que nunca vinham á luz. Afinal, convencendo-se de que ella, sem ter ainda morrido, já não vivia para ninguem, nem tão pouco para si, desabou n'um fundo entorpecimento apathico, estagnado como um charco podre que causa nojo. Fizera-se aspera, desconfiada, sobrolho carrancudo, uma linha dura de um canto ao outro da bocca. E durante dias inteiros, sem interromper o serviço, que ella fazia agora automaticamente, por um habito de muitos annos, gesticulava e mexia com os labios, monologando sem pronunciar as palavras. Parecia indifferente a tudo, a tudo que a cercava.

Não obstante, certo dia em que João Romão conversou muito com Botelho, as lagrimas saltaram dos olhos da infeliz, e ella teve de abandonar a obrigação, porque o pranto e os soluços não lhe deixavam fazer nada.

Botelho havia dito ao vendeiro:

—Faça o pedido! É occasião.

—Hein?

—Póde pedir a mão da pequena. Está tudo prompto!